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O Desafio da Sobriedade Política:

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

A Ilusão da Mentoria, a Arrogância e a Força do Trabalho Real

É, no mínimo, um desaforo político ver um cidadão de pouco mais de 40 anos contar vantagem sobre supostas mentorias de milhões de pessoas — como ele próprio declarou, em entrevista a Cláudio Dantas, em 18 de agosto de 2026: "Estou treinando milhões de pessoas, formando a mentalidade de um povo" —, como se o impacto na vida pública se medisse por algoritmos de internet ou promessas de enriquecimento rápido. Quando Pablo Marçal utiliza essa fala como pilar de sua autoridade, ele se coloca, ainda que indiretamente, em um patamar de confronto direto e vaidoso de "mentorias" com figuras como o atual presidente da República, Lula — que, ao longo de mais de quarenta anos de trajetória política, acumulou, por estimativa própria minha, um alcance de mais de 100 milhões de pessoas, equivalente a cerca de 30% da população de orientação esquerdista que viveu e ainda vive no país ao longo desse período. Embora eu discorde profundamente da ideologia do atual presidente, que considero um atraso estrutural para o nosso país e para as nações aliadas, o fato é que essa escala de massas não é novidade, nem prova de virtude intelectual. Com uma vivência de milhares de funcionários, clientes e alunos ao longo de uma trajetória em que sempre fomos coparticipantes da vida — em um ciclo maravilhoso onde todos crescem juntos —, essa arrogância puramente tecnicista de Marçal soa como um verdadeiro vendaval passageiro. Contar vantagem de "bilionário de palco" é ignorar que a envergadura de um líder não se mede pelo volume de bravatas digitais, mas pela profundidade de seus princípios.

A briga política contra o lulismo e a defesa dos valores de direita encontram eco legítimo em brasileiros cansados do estatismo. No entanto, a causa conservadora e liberal não precisa de salvadores arrogantes que confundem o mérito do esforço pessoal com a infalibilidade intelectual.

A Ilusão do Discurso de Sucesso e a Força do Trabalho Real


É inegável que nomes como Pablo Marçal possuem uma percepção aguda sobre engajamento, agilidade mental e a psicologia das massas conectadas. Contudo, transformar a mentoria de massas em métrica de profundidade intelectual é um equívoco monumental. Afirmar que se alcançou milhões de pessoas digitalmente não significa que houve transformação real; a esmagadora maioria consome o conteúdo como entretenimento passageiro e sai sem entender praticamente nada. Afirmar que a pessoa não deve se preocupar com o preço das coisas e focar apenas em produzir é um pensamento equivocado e desconectado da realidade. Convivi de perto com vários funcionários da classe mais baixa na construção civil, como serventes de pedreiro; muitos me pediam para classificá-los como pedreiros, alguns se estabeleceram, outros não, pois nasceram para servir com uma dignidade invejável. Essas pessoas possuem uma força de trabalho preciosa, valores maiores do que o dinheiro e nunca vão saber — nem querem saber — o que é mentoria. O sucesso legítimo é construído com o suor diário, e não com fórmulas mágicas.

Distorções Teológicas: A Cruz e a Riqueza


O ponto mais sensível — e que exige maior contundência de quem professa a fé cristã — reside na forma como passagens bíblicas são instrumentalizadas por discursos de alta performance. Ouvir falas que distorcem a visão bíblica sobre a riqueza e a pobreza fere a coerência do Evangelho.

Cristo jamais tratou a riqueza como passaporte para a superioridade espiritual ou como sinônimo exclusivo de produtividade material desenfreada. Como o próprio Evangelho nos recorda (a exemplo de passagens como João 12), a simplicidade e a pobreza estrutural sempre existirão na sociedade, e o valor do ser humano reside no que ele é diante de Deus, e não no saldo bancário. Pessoas simples sempre terão valores maiores do que o dinheiro, pois dignidade, amor a Deus e a si próprio não se compram. Tomar a cruz de Cristo significa abnegação, serviço e humildade — virtudes que colidem diretamente com a ostentação e o orgulho financeiro.

Não tenho conhecimento de que Pablo Marçal tenha declarado publicamente ser adepto do livro Pai Rico, Pai Pobre, mas pela forma como conduz seus negócios e mentorias, é uma dedução razoável que ele siga de perto a linha de pensamento ali popularizada, replicando princípios de acumulação e multiplicação de riqueza semelhantes aos ensinados na obra. Tais práticas, é importante frisar, são corretas perante as leis nacionais e estrangeiras — não se trata aqui de uma questão de legalidade. Ainda assim, uma parcela significativa de brasileiros — inclusive cristãos comprometidos com o Evangelho — se opõe a essas condutas, por entendê-las claramente contrárias aos ensinamentos de Cristo Jesus. Li essa obra na íntegra há vinte anos e já a contestava naquela época: a lógica de que a riqueza é, por si só, sinal de virtude ou inteligência superior colide frontalmente com a mensagem de humildade e desapego que o Evangelho propõe.

A Arrogância e a Ética da Oração


Outro aspecto que afasta muitos simpatizantes de sua pauta é a postura de confronto verbal desmedido. Em entrevista a Régis Tadeu, no canal MatthiasTV (aos 14min36s), Marçal chegou a dizer: "quero que você seja amaldiçoado". Reconheço que era um momento de forte tensão e discussão acalorada, e que reagir com raiva sob pressão é uma fraqueza humanamente compreensível. Ainda assim, verbalizar publicamente o desejo de que alguém seja amaldiçoado — ainda que em nome de terceiros ou no calor do debate — já é compartilhar dessa intenção, e o limite da civilidade e da moral cristã foi rompido.

Para o cristão que compreende o sacrifício de Cristo na cruz, a lógica da retaliação e da maldição cede lugar à intercessão. Mesmo nos momentos de maior tensão ou divergência política, o cristão não amaldiçoa o próximo; ora por ele, lembrando que a conversão e a transformação do coração pertencem à soberania de Deus, para quem não há impossíveis. Davi pôde errar em momentos de ira, mas a nossa regra de fé sob a graça é a oração pelos inimigos. Pablo Marçal tem talentos notáveis de comunicação, mas para liderar de verdade e somar na luta pelo país, precisa urgentemente de sobriedade e de uma conversão genuína aos princípios que diz defender.



Hermes Marcos Vasconcelos Soares
Engenheiro Civil, Empresário da Construção Civil, especialista em Estruturas — UFMG e USP


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Gazeta de Varginha

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