A universidade brasileira e a república da mediocridade
Há um fato incômodo que o discurso oficial tenta esconder sob toneladas de retórica pedagógica: o Brasil fracassou em construir universidades de padrão internacional.
Enquanto países emergentes transformaram seus sistemas acadêmicos em centros de inovação científica, o Brasil permanece atolado em um modelo burocrático, politizado e protegido por privilégios corporativos.
Os números são brutais. Nenhuma universidade brasileira aparece entre as 200 melhores do mundo nos rankings mais respeitados. A melhor posição costuma ser ocupada pela Universidade de São Paulo, que figura apenas na faixa entre 200 e 250 no ranking do QS World University Rankings e em posições semelhantes no Times Higher Education.
Para um país que se pretende potência econômica e tecnológica, essa colocação é constrangedora.
O problema, porém, não é apenas estatístico. É estrutural.
A universidade pública brasileira foi capturada por duas distorções graves.
A primeira é a estabilidade absoluta do corpo docente. Professores ingressam por concurso - o que é correto - mas depois passam a desfrutar de uma blindagem quase vitalícia. Em muitos casos, desaparece qualquer forma efetiva de cobrança por produtividade científica.
Nas universidades líderes do mundo, professores são avaliados permanentemente. Publicações, impacto científico, captação de recursos e formação de novos pesquisadores são critérios objetivos de permanência.
Aqui, frequentemente, basta existir na folha de pagamento.
A segunda distorção é a captura ideológica e populista do sistema universitário.
Durante décadas, governos transformaram a expansão do ensino superior em propaganda política. Criaram-se campi, cursos e estruturas administrativas para inflar estatísticas educacionais. O resultado foi previsível: multiplicaram-se prédios e cargos, mas não necessariamente centros de excelência científica.
A lógica deixou de ser produzir ciência relevante. Passou a ser alimentar narrativas eleitorais.
O país produz diplomas. Mas produz pouca inovação.
Enquanto universidades asiáticas avançam com velocidade impressionante, investindo em ciência aplicada, tecnologia e inteligência artificial, o Brasil continua debatendo assembleias estudantis, disputas ideológicas e burocracias internas.
Não se trata de negar que existam pesquisadores brilhantes no país. Eles existem - e muitos trabalham heroicamente apesar do sistema.
Mas o modelo institucional está desenhado para preservar a mediocridade, não para premiar excelência, em que pese, muitos acadêmicos superam o que aprenderam na Universidade – justiça seja feita.
E aqui cabe um esclarecimento pessoal.
O signatário deste artigo não é universitário. Não possui títulos acadêmicos pendurados na parede. Mas aprendeu muito cedo que conhecimento não nasce apenas dentro de salas de aula. Ele se constrói na curiosidade intelectual, na leitura obstinada e na busca permanente por informação.
Ao longo da vida, aprendi a procurar conhecimento por onde passei - em livros, jornais, debates públicos e, sobretudo, nas fascinantes notícias científicas que revelam diariamente o avanço da humanidade.
Talvez por isso a decadência do ensino superior brasileiro seja ainda mais revoltante.
A universidade deveria ser o farol do pensamento crítico, da ciência e da inovação. No Brasil, em muitos casos, transformou-se em uma estrutura pesada, burocrática e frequentemente autorreferente.
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