Há alguns anos escrevi que o mundo estava construindo uma montanha de dívidas que, cedo ou tarde, cobraria sua conta, mas jaz inerte na sua base.
Hoje, os números parecem menos uma advertência e mais um aviso.
Segundo o FMI, a dívida global - governos, empresas e famílias - chegou a aproximadamente US$ 251 trilhões, equivalente a pouco mais de 235% do PIB mundial em 2024. E a dívida pública mundial continuou avançando: em 2025 chegou a quase 94% do PIB, com projeção de alcançar 100% até 2029.
Não significa que o mundo esteja literalmente falido, mas algo talvez mais perigoso:
o mundo está excessivamente endividado e cada vez mais dependente de crescimento, crédito, juros administráveis e confiança.
E confiança, como sabemos, é um ativo que desaparece muito mais rápido do que se constrói.
Enquanto governos aumentam impostos, famílias enfrentam preços elevados e empresas lutam contra juros e custos crescentes, uma parcela gigantesca da riqueza mundial continua sendo direcionada para aquilo que chama atenção — e não necessariamente para aquilo que produz bem-estar.
O futebol movimenta bilhões.
A indústria da música movimenta bilhões.
Cinema, televisão, publicidade, influenciadores, luxo, grifes e celebridades movimentam fortunas.
Um atleta pode receber dezenas de milhões.
Uma celebridade pode ganhar uma fortuna para aparecer alguns segundos diante de uma câmera.
Uma bolsa pode custar o equivalente a meses ou anos de trabalho de um cidadão.
Nada disso é ilegal.
É o mercado funcionando, as guerras destruindo e um sistema cruel explorando.
Mas há uma pergunta que o mercado não responde:
estamos pagando pelo valor real das coisas ou pela capacidade que elas têm de chamar atenção?
A etiqueta passou a valer mais que o tecido.
O nome passou a valer mais que o produto.
A imagem passou a valer mais que a utilidade.
E o espetáculo, muitas vezes, passou a valer mais que a realidade.
O PROBLEMA NÃO É O LUXO. É A DESPROPORÇÃO.
Não há problema em alguém ganhar milhões se sua atividade gerar receitas compatíveis.
Uma empresa pode pagar R$ 100 milhões a um atleta se acreditar que ele produzirá muito mais do que isso.
Uma grife pode cobrar R$ 50 mil por uma bolsa se encontrar quem queira pagar.
Um artista pode receber milhões se houver milhões dispostos a comprar seus espetáculos.
Isso é mercado.
O problema começa quando confundimos preço com valor.
Um gol futebol pode valer milhões no mercado.
Mas não alimenta ninguém.
Uma bolsa pode custar dezenas de milhares de reais.
Mas não constrói uma escola.
Uma campanha publicitária pode pagar uma fortuna a uma celebridade.
Mas não produz, por si só, uma tonelada de alimentos.
Enquanto isso, quem planta, constrói, transporta, opera máquinas, trata doentes, ensina crianças e mantém a economia funcionando frequentemente recebe uma parcela muito menor dessa riqueza.
E SE A LIQUIDEZ DESAPARECER?
Aqui está a pergunta que deveria tirar o sono de economistas, governos e investidores.
O que acontece quando todos querem vender e quase ninguém quer comprar?
Uma fábrica pode valer bilhões no balanço.
Um imóvel pode estar avaliado em milhões.
Um terreno pode ter um preço extraordinário.
Uma empresa pode apresentar ativos gigantescos.
Mas, se não houver comprador, crédito ou liquidez, quanto realmente valem?
Esse é o ponto que frequentemente esquecemos.
Patrimônio não é dinheiro.
Ativo não é liquidez.
Preço contábil não é necessariamente preço realizável.
Em uma grande crise, o problema não é apenas a quantidade de dívida.
É a capacidade de refinanciá-la.
É a capacidade de vender ativos.
É a capacidade de encontrar compradores.
É a capacidade de continuar produzindo e pagando juros quando o crédito desaparece.
E é exatamente nesse momento que uma montanha de dívidas pode transformar uma crise financeira em uma crise econômica.
O FMI já alerta que o custo dos juros está aumentando e que o espaço fiscal mundial está se estreitando. Em apenas quatro anos, o peso dos juros pagos pelos governos subiu de cerca de 2% para quase 3% do PIB mundial.
A PERGUNTA QUE FICA
Há alguns anos, parecia exagero perguntar se esse modelo poderia continuar.
Hoje, já não parece.
Não porque o mundo esteja condenado à fome ou à falência.
Mas porque uma economia mundial altamente endividada não pode depender eternamente de mais dívida para financiar o presente.
Alguma coisa terá de acontecer.
Ou haverá crescimento suficiente para carregar essa montanha.
Ou haverá inflação corroendo parte das dívidas.
Ou haverá aumento de impostos e redução de despesas.
Ou haverá reestruturações, calotes e perdas.
Ou haverá uma combinação de tudo isso.
A matemática não desaparece porque os governos preferem não enxergá-la.
E existe ainda uma ironia monumental.
O mundo diz que não tem dinheiro para tudo o que é essencial, mas parece sempre encontrar dinheiro para tudo aquilo que é capaz de vender desejo.
Não falta dinheiro para o espetáculo.
Falta racionalidade para decidir onde o dinheiro produz mais benefício.
Não precisamos acabar com o futebol.
Não precisamos acabar com a música.
Não precisamos acabar com a moda.
Não precisamos acabar com o luxo.
Precisamos apenas recuperar uma coisa que a civilização parece ter esquecido:
a diferença entre aquilo que tem preço e aquilo que tem valor.
Porque, quando chegar a próxima grande crise de liquidez, talvez descubramos uma verdade brutal:
um mundo cheio de ativos pode continuar pobre se ninguém tiver dinheiro para comprá-los.
E um mundo cheio de dívidas pode parecer rico, mas até o balanço final.
Talvez aquele editorial escrito anos atrás por mim não estivesse tão errado.
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