A crise envolvendo a operacionalização do auxílio-alimentação dos servidores municipais deixou de ser apenas um problema administrativo. O que se vê agora é um retrato preocupante de uma cultura pública baseada no improviso, na pressa e na ausência de critérios sólidos de governança.
A exigência de envio de documentos pessoais em plataformas pouco transparentes, a resistência de grandes estabelecimentos comerciais em aderir ao sistema por “risco econômico-financeiro” e as notícias envolvendo instituições ligadas ao fluxo operacional do modelo levantam questionamentos inevitáveis. Não se trata de acusar previamente ninguém de ilegalidade, mas de perguntar o óbvio: houve análise técnica adequada antes de inserir milhares de servidores nesse ecossistema?
O ponto mais grave talvez não seja um contrato específico, mas a repetição de um padrão administrativo conhecido: soluções vendidas como modernas, implantadas sem debate amplo, sem planejamento robusto e sem avaliação clara de riscos institucionais, financeiros e jurídicos.
Quando a administração pública passa a tratar improviso como inovação, o resultado costuma ser previsível: insegurança para servidores, desconfiança do mercado e desgaste político para o próprio governo. Também chama atenção o silêncio sobre responsabilidade. Em qualquer gestão séria, decisões dessa natureza exigem rastreabilidade técnica, pareceres consistentes e transparência absoluta. Afinal, modernizar não significa apenas digitalizar processos; significa garantir segurança, confiabilidade e credibilidade.
No fim, sobra ao servidor aquilo que nunca deveria fazer parte de um benefício básico: a incerteza. Incerteza sobre o funcionamento do sistema, sobre o destino de seus dados pessoais e até sobre a aceitação do próprio cartão no caixa do supermercado.
Se houver algo a ser aprendido com mais este episódio, é que administração pública não pode ser laboratório de experiências improvisadas. Porque, quando a gambiarra institucional vira política pública, a conta inevitavelmente chega - e quase sempre para quem menos decide.
E vale lembrar que, na administração pública, contratações, adesões, “caronas”, credenciamentos, dispensas licitatórias, inexigibilidades e até doações de bens públicos a particulares não nascem do acaso. Tudo começa em um projeto básico consistente, passa obrigatoriamente pelo crivo jurídico e deve ocorrer sob a fiscalização e visibilidade dos órgãos de controle interno. Quando surgem questionamentos ou possíveis problemas, inevitavelmente também recaem dúvidas sobre todos os agentes que participaram dessas etapas técnicas e administrativas, seja por ação, omissão ou mera validação dos procedimentos adotados.
Será que o ex-“MacGyver” da Prefeitura não deixou aprendizes no seu rastro marcados pelas improvisações? Sr. Prefeito, sugerimos comprar e usar uma chibata curta.
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