Quando William Shakespeare escreveu, na peça As You Like It, que “o mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de atores”, talvez não imaginasse o quanto sua metáfora se ajustaria à política moderna.
O palco é global. Mudam as bandeiras, os idiomas e os discursos, mas o roteiro raramente se altera. Políticos surgem prometendo renovação, moralidade, justiça social ou prosperidade econômica. Cada qual veste o figurino que melhor seduz a plateia. Entretanto, passado o entusiasmo da estreia, percebe-se que a peça continua praticamente a mesma.
O sistema político tornou-se uma engrenagem tão complexa que muitos dos que chegam ao poder, jurando combatê-lo, acabam aderindo a ele para sobreviver dentro da própria estrutura. O rebelde de ontem vira o administrador da máquina que prometia desmontar. Descobre-se, então, que o ator não está ali para mudar o enredo — apenas para representar o papel disponível.
Essa percepção não é nova. Séculos antes de Shakespeare, o filósofo cínico Diogenes of Sinope já ironizava as contradições humanas. Ao ver um homem maltrapilho sendo arrastado para a prisão, teria respondido aos discípulos que perguntavam sobre a cena: “são grandes ladrões prendendo pequenos ladrões.” A frase atravessa os séculos com desconcertante atualidade.
Em muitos países — e o Brazil não escapa à reflexão — a política frequentemente assume contornos de espetáculo moralizante, enquanto suas próprias contradições seguem confortavelmente instaladas nos bastidores.
Se quisermos buscar até na ciência uma metáfora para esse fenômeno, poderíamos parafrasear o químico Antoine Lavoisier, formulador da Law of Conservation of Mass, cuja máxima afirma que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” No teatro político contemporâneo, a adaptação parece inevitável: nada se cria, nada se perde — tudo se transforma em conveniência própria e esperteza.
No final, o poder se assemelha a uma velha companhia teatral: os atores mudam, os figurinos ideológicos se renovam, mas o enredo permanece. A plateia continua sendo convidada a acreditar que a próxima estreia trará algo diferente.
Raramente traz.
Talvez por isso outra frase de Shakespeare, desta vez em Macbeth, soe como um retrato permanente do poder: a vida é apenas um ator que se agita por sua hora no palco — e depois desaparece.
A peça, porém, continua. Com novos atores. E o mesmo roteiro.
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