top of page
1e9c13_a8a182fe303c43e98ca5270110ea0ff0_mv2.gif

Pesquisadores da USP desenvolvem teste que detecta superbactérias em seis horas

  • 22 de jul.
  • 4 min de leitura
Reprodução
Reprodução


Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) desenvolveram e validaram uma estratégia capaz de identificar em seis horas pacientes que carregam no intestino bactérias resistentes a antibióticos considerados essenciais para o tratamento de infecções graves. O método pode reduzir em até 60 horas o tempo necessário para obter o diagnóstico pelo procedimento convencional, que costuma levar de dois a três dias.

A identificação rápida pode ter impacto principalmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), onde pacientes são submetidos a testes para verificar se estão colonizados por esses microrganismos. Enquanto aguardam o resultado tradicional, eles podem permanecer isolados por precaução, ocupando leitos reservados e exigindo o uso de equipamentos de proteção. Quando a pessoa é portadora, existe ainda o risco de transmissão silenciosa para outros pacientes vulneráveis durante o período de espera.

O trabalho, reunido em quatro estudos publicados em três periódicos científicos internacionais, avaliou um teste de baixo custo semelhante aos testes imunocromatográficos utilizados em farmácias. O método permite identificar a presença de enzimas chamadas carbapenemases, responsáveis por destruir os efeitos dos antibióticos carbapenêmicos, além de indicar qual tipo de enzima está presente. A informação pode auxiliar as equipes de controle de infecção a definir medidas de isolamento e a decidir se é necessário rastrear outros pacientes. No Brasil, a enzima KPC é responsável pela maioria dos casos.

As chamadas Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos (ERC) incluem bactérias intestinais comuns, como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli, que desenvolveram resistência aos carbapenêmicos, medicamentos reservados para infecções graves. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica esses microrganismos como uma ameaça de prioridade crítica à saúde humana. Quando deixam de apenas colonizar o intestino e provocam infecções na corrente sanguínea, pulmões ou trato urinário, podem reduzir as opções de tratamento, prolongar internações e elevar o risco de morte. No Brasil, entre casos de sepse com confirmação laboratorial, as infecções por ERC foram associadas a uma mortalidade de 63,8%, contra 33,4% nas causadas por outras bactérias.

O método começa com a coleta de uma amostra por swab retal. Em vez de aguardar o crescimento das bactérias em uma cultura, o material permanece por seis horas em um caldo nutritivo e depois é aplicado diretamente ao teste. Em laboratório, o procedimento alcançou 100% de sensibilidade e especificidade para as cinco enzimas mais comuns após esse período de incubação. Em amostras reais de pacientes de UTI, porém, a sensibilidade foi de 65% no conjunto analisado e chegou a aproximadamente 82% quando o swab apresentava quantidade adequada de fezes, mostrando que a qualidade da coleta interfere no desempenho do exame.

Os pesquisadores também avaliaram a aplicação da estratégia em duas UTIs. A utilização do teste reduziu o tempo necessário para o diagnóstico e permitiu interromper mais cedo as medidas de isolamento preventivo. Entre os pacientes que não eram portadores da bactéria, o período de espera para retirada da precaução caiu de 47 para 23 horas. Apesar disso, a quantidade de pacientes que adquiriram a bactéria durante a internação não apresentou redução estatisticamente significativa. Para o infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP e um dos autores dos estudos, o resultado mostra que o teste acelera a identificação, mas não é suficiente, sozinho, para impedir a transmissão.

Uma análise com 751 pacientes identificou fatores associados à colonização já existente na chegada à UTI, como internações recentes e transferências entre hospitais. Já a aquisição da bactéria durante a internação esteve relacionada ao uso de antibióticos de amplo espectro, à utilização de sonda urinária e, principalmente, à chamada pressão de colonização, que corresponde à proporção de pacientes já colonizados dentro da mesma unidade. Segundo os pesquisadores, em locais onde essa pressão é elevada, medidas de precaução de contato isoladamente podem não ser suficientes.

O teste pode ter maior utilidade em ambientes que concentram pacientes vulneráveis, como UTIs, unidades de transplante, setores de hematologia e oncologia e unidades de queimados. Também pode beneficiar pacientes transferidos de outros serviços ou que já tenham histórico de colonização. Embora a cultura convencional tenha menor custo individual, os pesquisadores estimam que o diagnóstico rápido possa reduzir gastos com isolamentos desnecessários, gerando uma economia semanal estimada entre US$ 2,4 mil e US$ 3,9 mil a cada 100 leitos de UTI.

A possível incorporação da tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS) dependeria de etapas regulatórias e de avaliação. O teste precisaria ser regularizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e analisado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que considera aspectos como desempenho, benefício clínico, custo-efetividade e impacto orçamentário. Uma eventual aprovação seria seguida pelo planejamento de compra, distribuição e capacitação dos laboratórios.

Para Salomão, a principal contribuição da estratégia está em reduzir o intervalo entre a coleta da amostra, a identificação do risco e a adoção de medidas de controle. O teste, porém, não elimina surtos nem impede sozinho a disseminação das bactérias. O controle depende da combinação entre diagnóstico rápido, higiene das mãos, precauções de contato, limpeza do ambiente, dimensionamento das equipes e uso racional de antibióticos.

Comentários


Gazeta de Varginha

bottom of page