Processos contra casas de apostas disparam no Brasil; maioria das decisões favorece apostadores
- 13 de jul.
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Levantamento aponta mais de 10 mil ações judiciais desde a regulamentação das bets, com bloqueios de saque e contas suspensas entre as principais reclamações.
O crescimento das apostas esportivas e dos cassinos online no Brasil também tem impulsionado a judicialização dos conflitos entre consumidores e empresas do setor. Desde a sanção da chamada Lei das Bets, no fim de 2023, mais de 10 mil processos foram movidos contra plataformas de apostas em todo o país.
Os dados fazem parte de um levantamento realizado pela empresa Predictus, especializada em inteligência jurídica, a pedido da BBC News Brasil. A pesquisa analisou mais de 630 milhões de processos judiciais e identificou 10.627 ações envolvendo casas de apostas entre 2018 e maio de 2026.
Somente em 2025, quando a regulamentação do setor começou efetivamente a ser aplicada, foram registrados 5.488 novos processos. Entre janeiro e maio de 2026, outras 4.037 ações já haviam sido ajuizadas, indicando tendência de crescimento.
Enquanto isso, o mercado continua em expansão. Segundo dados citados pela reportagem, as empresas de apostas movimentaram cerca de R$ 37 bilhões em receitas no Brasil durante o último ano.
Apostadores vencem a maioria das ações julgadas
Embora grande parte dos processos ainda esteja em andamento, os casos já concluídos mostram vantagem para os consumidores.
Dos 10.627 processos identificados:
44,1% ainda tramitam na Justiça;
17,9% foram extintos sem julgamento do mérito;
38% já receberam decisão judicial.
Entre os 3.438 processos julgados:
589 tiveram vitória total dos apostadores;
1.446 tiveram vitória parcial dos consumidores;
1.403 foram favoráveis às empresas.
Na prática, os apostadores obtiveram algum tipo de êxito em 59,2% das ações julgadas, enquanto as casas de apostas venceram 40,8% dos casos. Também houve 607 acordos entre as partes.
Bloqueio de saques lidera reclamações
A principal origem dos processos envolve dificuldades para retirar dinheiro das plataformas.
Entre as ações cuja motivação pôde ser identificada, destacam-se:
Contas bloqueadas: 636 processos;
Alteração unilateral das regras pelas plataformas: 629;
Cláusulas contratuais consideradas abusivas: 541;
Golpes envolvendo Pix: 518;
Falha no dever de cuidado com o consumidor: 353;
Bloqueio de saques: 429.
Segundo especialistas consultados pela reportagem, muitas reclamações envolvem mudanças nas regras após a obtenção de prêmios ou bloqueios de contas que impedem os usuários de sacar valores já conquistados.
Um dos casos citados envolve um apostador que acumulou prêmio de R$ 1,15 milhão em jogos de cassino online. A plataforma bloqueou os saques e posteriormente encerrou sua conta, alegando uma suposta falha sistêmica. O processo segue em tramitação na Justiça de São Paulo.
Ações por vício em apostas crescem rapidamente
Outro tema que vem ganhando espaço nos tribunais é o pedido de devolução de valores por apostadores diagnosticados com ludopatia, transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar.
Embora ainda representem parcela pequena do total, essas ações cresceram rapidamente:
7 processos em 2024;
27 em 2025;
52 apenas entre janeiro e maio de 2026.
Também aumentaram significativamente as ações baseadas na chamada "falha no dever de cuidado", argumento segundo o qual as plataformas não adotaram medidas para proteger usuários com comportamento compulsivo.
Especialistas afirmam que a regulamentação passou a exigir mecanismos de jogo responsável, como identificação de padrões de dependência, limitação de apostas e suspensão de contas em situações de risco.
Justiça reconhece dever de proteção
Em uma das decisões mais relevantes sobre o tema, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação de uma empresa de apostas para devolver 50% dos valores perdidos por um apostador diagnosticado com ludopatia.
Segundo os desembargadores, a empresa deixou de adotar medidas eficazes para impedir o agravamento do comportamento compulsivo do cliente.
Ao mesmo tempo, a Justiça entendeu que a devolução integral dos valores poderia transformar o Judiciário em uma espécie de seguro contra perdas financeiras decorrentes das apostas, motivo pelo qual fixou a restituição em metade do prejuízo.
Sudeste concentra maior número de processos
O levantamento também mostra diferenças regionais na judicialização das apostas.
O Sudeste lidera o ranking, concentrando 48,2% das ações (5.076 processos), seguido pelo Nordeste, com 29,3% (3.092 ações).
Na sequência aparecem:
Sul: 11,9%;
Centro-Oeste: 6,9%;
Norte: 3,6%.







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