Procuradores do MPF demonstram perplexidade com menções a Paulo Gonet em relatório da PF
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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Integrantes do Ministério Público Federal (MPF) relataram, nas últimas 48 horas, sentimentos de “constrangimento” e “perplexidade” diante das menções ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, em um relatório da Polícia Federal que trata da relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Procuradores também demonstraram preocupação com a forma como Gonet reagiu às informações apresentadas no documento.
O nome do procurador-geral aparece em mensagens trocadas entre o advogado de Vorcaro, Ciro Passos, e o ex-banqueiro. As conversas mencionam situações que, segundo integrantes do MPF, sugerem proximidade entre Gonet e Vorcaro, incluindo passagens aéreas internacionais para o filho do procurador-geral, combinações para fumar charutos e beber whisky Macallan e o envio de uma fotografia de Ciro Passos e Gonet ao então dono do banco Master.
De acordo com os relatos, nos grupos internos do MPF prevalece o silêncio sobre o assunto. Procuradores atribuem esse cenário a uma medida adotada pela gestão de Gonet neste ano, que, segundo integrantes da categoria, acabou restringindo manifestações internas. Fora desses grupos, porém, “constrangimento” e “perplexidade” seriam os termos mais utilizados para descrever a reação às revelações.
As críticas também estão relacionadas ao grau de intimidade indicado pelas mensagens e ao papel de Ciro Passos como intermediário na relação. Integrantes do MPF apontam o advogado como um conhecido lobista que participa de diversos eventos nos quais Gonet também está presente. Mesmo considerando que, à época das conversas, o caso envolvendo o Banco Master ainda não havia ganhado as proporções atuais, procuradores avaliam que a proximidade teria representado um erro e comprometido um princípio considerado fundamental para a carreira: a independência.
A atuação de Gonet após a divulgação do relatório da PF também passou a ser questionada. O procurador-geral contestou rapidamente as informações e pediu o arquivamento do material poucas horas depois, embora o prazo disponível fosse de cinco dias. Gonet adotou procedimento semelhante em relação às denúncias apresentadas por Daniel Vorcaro em depoimento ao ministro do STF André Mendonça.
O episódio levou procuradores influentes a discutir, ainda de maneira inicial, a possibilidade de que o próximo presidente da República escolha o futuro procurador-geral a partir de uma lista tríplice elaborada pela própria categoria. O modelo não chegou a ser institucionalizado por lei, mas foi seguido até 2019. Naquele ano, Jair Bolsonaro rompeu a tradição ao escolher Augusto Aras. Em 2023, Luiz Inácio Lula da Silva escolheu Paulo Gonet e posteriormente o reconduziu para um segundo mandato.
Para procuradores, escolhas feitas a partir de acordos políticos envolvendo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal podem comprometer a independência que a função de procurador-geral exige para investigar. Gonet é visto por integrantes da categoria como próximo dos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, o que, na avaliação desses procuradores, dificultaria uma atuação independente diante da atual crise.
Os integrantes do MPF também lembram que Moraes e Gilmar foram consultados por Lula durante o processo de escolha de Gonet. Na avaliação dos procuradores, esse histórico torna mais difícil imaginar que o atual PGR possa eventualmente abrir uma investigação contra Moraes.
A intenção discutida na categoria é aguardar o desenrolar da crise e, nas próximas semanas, retomar a defesa de que a lista tríplice seja respeitada pelo próximo presidente. Também existe a intenção de apoiar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para transformar a lista em uma regra constitucional. O mandato de Gonet permanece até dezembro de 2027.
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