Proteínas no sangue mudam anos antes da ELA e podem ajudar a prever início dos sintomas
28 de jul.
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Um painel formado por 19 proteínas presentes no sangue conseguiu prever, com anos de antecedência, quando pessoas com alto risco genético para desenvolver esclerose lateral amiotrófica (ELA) começariam a apresentar os primeiros sintomas da doença. O estudo foi publicado na revista científica Nature Medicine e pode abrir caminho para pesquisas de prevenção e para o desenvolvimento de estratégias capazes de agir antes que os neurônios motores sofram danos irreversíveis.
A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade de Miami, com apoio dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH). Os pesquisadores acompanharam durante quase duas décadas pessoas com alto risco genético para a doença por meio do estudo Pre-symptomatic Familial ALS (Pre-fALS). Ao todo, foram analisadas 516 amostras de plasma coletadas ao longo do tempo de 137 participantes. Desse grupo, 33 pessoas desenvolveram ELA ou demência frontotemporal durante o acompanhamento.
Os cientistas avaliaram mais de 5 mil proteínas presentes nas amostras e identificaram 92 cujos níveis apresentavam alterações antes do aparecimento dos sinais clínicos. Algumas dessas mudanças foram observadas pouco antes do início dos sintomas, enquanto outras surgiram muitos anos antes da manifestação da doença. Com o auxílio de técnicas de aprendizado de máquina, os pesquisadores chegaram a um painel final composto por 19 proteínas.
Entre os marcadores identificados está o neurofilamento de cadeia leve, conhecido como NfL. Essa proteína é liberada na corrente sanguínea quando ocorre lesão nos axônios, estruturas responsáveis pela transmissão dos comandos dos neurônios. Estudos anteriores já haviam demonstrado que os níveis de NfL aumentam nos meses que antecedem o início da ELA, mas os novos resultados indicam que a combinação de diferentes proteínas pode oferecer uma previsão mais precisa, especialmente quando o objetivo é estimar o surgimento da doença com maior antecedência.
O modelo desenvolvido pelos pesquisadores foi capaz de calcular a probabilidade de uma pessoa desenvolver sintomas em períodos de seis meses, um ano, dois, três ou cinco anos. Além de estimar o risco, o sistema também conseguiu calcular aproximadamente quando os primeiros sinais apareceriam. A diferença média entre a previsão e o momento real do início dos sintomas foi de 1,6 ano. Quando apenas o NfL era utilizado, o erro praticamente dobrava.
Os resultados também foram avaliados com dados do UK Biobank, um amplo banco britânico que reúne informações de saúde e amostras biológicas. O painel de 19 proteínas manteve desempenho superior ao do neurofilamento isolado, embora os pesquisadores ressaltem que as amostras utilizadas nessa etapa não pertenciam aos mesmos indivíduos acompanhados ao longo do estudo original.
A descoberta pode ter impacto principalmente no desenvolvimento de pesquisas preventivas. Atualmente, mesmo entre pessoas que carregam variantes genéticas associadas à ELA, é difícil prever exatamente quem desenvolverá a doença e quando os primeiros sintomas aparecerão. Com uma ferramenta capaz de identificar indivíduos próximos da manifestação clínica, pesquisadores poderiam selecionar participantes mais adequados para ensaios que avaliem tratamentos antes do surgimento dos sinais.
O estudo, porém, não representa a criação de um exame de rastreamento para a população em geral nem de um teste diagnóstico disponível na prática clínica. Os pesquisadores destacam que o painel ainda precisa ser validado em grupos maiores e adaptado para exames laboratoriais padronizados antes de uma eventual aplicação médica.
A esclerose lateral amiotrófica é uma doença neurodegenerativa que atinge os neurônios motores, responsáveis por transmitir aos músculos os comandos enviados pelo cérebro e pela medula espinhal. Com a progressão da doença, os pacientes podem apresentar fraqueza muscular, dificuldades para caminhar, segurar objetos, falar e engolir. Em estágios avançados, também podem ser afetados os músculos envolvidos na respiração.
A possibilidade de identificar alterações no organismo anos antes dos primeiros sintomas também pode favorecer a avaliação de tratamentos preventivos. Um exemplo é o tofersen, medicamento já aprovado para casos sintomáticos de ELA, que vem sendo estudado no ensaio clínico ATLAS, desenvolvido em parceria com a empresa Biogen. A pesquisa busca verificar se o início da terapia antes da manifestação dos sintomas pode evitar ou retardar o desenvolvimento da doença.
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