Trump libera venda de diesel russo para mercado americano e mundial sem exigência de contrapartida na guerra da Ucrânia; volumes são pequenos, mas impacto político é amplo
há 11 horas
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou a retomada da venda de diesel de origem russa para o mercado americano e para outros países, em uma decisão que representa mudança radical na postura de Washington em relação às sanções energéticas impostas à Rússia desde a invasão da Ucrânia. O chamado "acordo" prevê o fornecimento de mais de 300 mil toneladas de combustível em outubro, 500 mil toneladas em novembro e 1 milhão de toneladas nos meses seguintes. Embora os números pareçam expressivos, diante do consumo global de 29 milhões de toneladas por dia, o volume liberado corresponde a uma parcela ínfima do mercado, sem capacidade de alterar significativamente a oferta mundial de diesel. Mesmo assim, a medida tem desdobramentos políticos de grande alcance, alterando o equilíbrio de forças e a dinâmica diplomática no conflito entre Rússia e Ucrânia.
A motivação declarada pelo governo americano é aliviar a forte alta dos preços de combustível registrada nos Estados Unidos desde o início da guerra contra o Irã, em fevereiro deste ano. O preço médio do galão de diesel saltou de US$ 3,81 para US$ 6,53, impacto que se reflete diretamente em setores essenciais como transporte rodoviário, agricultura e distribuição de alimentos. Somou-se a isso o aumento no preço da gasolina, que subiu de US$ 2,94 para US$ 4,36 em média, além de reajustes nos custos de alimentação e moradia. Com as eleições legislativas marcadas para o dia 3 de novembro — em jogo para um terço do Senado e toda a Câmara dos Representantes —, o cenário econômico interno passa a ser determinante e a popularidade do governo republicano está diretamente vinculada à capacidade de controlar custos que afetam o dia a dia dos cidadãos.
A decisão de suspender restrições ao combustível russo provocou críticas tanto entre parlamentares democratas quanto republicanos, que avaliam a medida como uma concessão à Rússia sem nenhuma contrapartida concreta em prol da paz. Trump chegou a classificar a guerra da Ucrânia como "ridícula", o que reforça a percepção de distanciamento da posição tradicional de apoio à soberania ucraniana. A liberação do diesel vem acompanhada de pressão sobre a Ucrânia para que suspenda a estratégia de ataques com drones às refinarias russas — uma das principais formas de pressão militar de Kiev contra Moscou —, sem que a Rússia seja instada a reduzir ou interromper os bombardeios contra alvos civis em território ucraniano. Em outras palavras, a Ucrânia é chamada a recuar em sua ação militar enquanto a Rússia mantém intacta a capacidade de ofensiva sobre cidades e infraestrutura vizinha.
A análise aponta que o desfecho reflete, em última instância, dificuldades mais amplas da política externa americana. Os Estados Unidos enfrentam obstáculos crescentes no controle de rotas estratégicas, com a presença de forças aliadas ao Irã, os houthis, obstruindo a navegação nos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb — pontos cruciais para o comércio global de petróleo e gás natural liquefeito. Nesse contexto, a liberação do diesel russo aparece como uma tentativa de compensação que acaba prejudicando a posição negociadora da Ucrânia. O terceiro maior produtor de petróleo do mundo, depois de Estados Unidos e Arábia Saudita, a Rússia recupera margem de manobra econômica e diplomática, enquanto Kiev vê reduzida sua capacidade de pressionar o adversário, com riscos de que o conflito se prolongue ainda mais sem perspectiva de solução imediata.
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