A queda de Assad na Síria representa um duro golpe para a Rússia e Putin
gazetadevarginhasi
9 de dez. de 2024
3 min de leitura
Por quase dez anos, foi o poder militar da Rússia que garantiu a permanência de Bashar al-Assad à frente da Síria.
Até os eventos surpreendentes do último fim de semana, quando Damasco foi tomada, Assad foi deposto e fugiu para Moscou, pedindo asilo.
Fontes do Kremlin e agências de notícias russas, incluindo a TV estatal, relataram que a Rússia ofereceu asilo a Assad e sua família "por motivos humanitários".
Em questão de dias, o projeto russo na Síria desmoronou de forma dramática, com Moscou impotente para impedir os acontecimentos. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia emitiu uma nota expressando sua "extrema preocupação" com os eventos na Síria. A queda do regime de Assad representa um duro golpe para o prestígio russo.
A Rússia enviou milhares de tropas para apoiar Assad em 2015, com o objetivo de afirmar sua presença como uma potência global.
Esse movimento foi o primeiro grande desafio de Putin contra a hegemonia ocidental, fora do espaço da antiga União Soviética.
Até então, parecia um sucesso. Em 2017, Putin visitou a base aérea de Hmeimim na Síria e declarou que a missão estava cumprida.
Apesar das denúncias frequentes sobre ataques aéreos russos que causavam vítimas civis, o Ministério da Defesa russo se sentiu confiante o suficiente para permitir que a mídia internacional presenciasse a operação militar russa.
Em uma dessas visitas, um oficial russo declarou à BBC que a Rússia estaria na Síria "para o longo prazo".
Contudo, o jogo era mais do que apenas prestígio. Bases militares.
Em troca de apoio militar, a Síria concedeu à Rússia a ocupação por 49 anos da base aérea de Hmeimim e da base naval de Tartous.
Com isso, a Rússia garantiu uma posição estratégica no Mediterrâneo oriental. As bases se tornaram pontos chave para o transporte de tropas, inclusive para a África.
Agora, a grande questão para Moscou é: o que acontecerá com essas bases russas? O anúncio na TV estatal russa sobre a chegada de Assad em Moscou também mencionou contatos com membros da "oposição armada síria".
A matéria afirmou que os líderes da oposição haviam garantido a segurança das bases russas e missões diplomáticas na Síria.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que as bases estão em "alerta máximo", mas que não há "ameaça séria" para elas no momento.
Bashar al-Assad foi o aliado mais leal da Rússia no Oriente Médio, e o Kremlin investiu muito na manutenção de seu poder. Agora, será difícil para Moscou esconder que sua queda é uma derrota significativa.
Ainda assim, as autoridades russas estão tentando desviar a atenção... e procurando culpados.
Em um programa noturno de notícias, a TV estatal russa direcionou críticas ao exército sírio, aparentemente culpando-o pela falta de resistência contra os rebeldes.
"Todos podiam ver que a situação se tornava cada vez mais difícil para as autoridades sírias", comentou o apresentador Yevgeny Kiselev.
"Em Aleppo, por exemplo, posições foram entregues sem luta. Fortificações foram abandonadas uma após a outra e depois destruídas, apesar de as tropas do governo estarem melhor equipadas e numericamente superiores muitas vezes. Isso é um mistério!", disse ele.
Kiselev ainda ressaltou que a Rússia "sempre buscou a reconciliação" entre os diferentes lados na Síria.
"Claro que não somos indiferentes ao que acontece na Síria, mas nossa prioridade é a segurança da Rússia — o que está acontecendo na zona da Operação Militar Especial [guerra na Ucrânia]", explicou Kiselev.
A mensagem é clara para o público russo.
Após nove anos de investimento russo para manter Assad no poder, os russos estão sendo informados de que há questões mais urgentes a serem resolvidas.
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