Argentina pode ampliar exportações de farelo de soja para a Europa diante de novas exigências ambientais
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O Brasil corre o risco de perder espaço no mercado europeu de farelo de soja para a Argentina devido às novas exigências de rastreabilidade da União Europeia. A partir de 30 de dezembro de 2026, a aplicação do Regulamento Europeu contra o Desmatamento (EUDR) deverá aumentar a pressão sobre os exportadores, que precisarão comprovar a origem da matéria-prima e atender aos critérios ambientais exigidos para comercializar seus produtos no bloco.
O principal desafio brasileiro não está na falta de soja, mas na complexidade de demonstrar a procedência dos grãos ao longo de uma cadeia de abastecimento que percorre milhares de quilômetros e envolve diferentes meios de transporte. Enquanto isso, a Argentina aposta em sua estrutura logística e em um sistema de monitoramento já operacional para tentar conquistar uma parcela maior das compras europeias.
O Brasil responde por aproximadamente metade das importações de farelo de soja da União Europeia. Em 2025, o país exportou um volume recorde de 23,3 milhões de toneladas do produto. Apesar desse desempenho, a Federação Europeia de Fabricantes de Ração (Fefac) estima que as exigências de rastreabilidade possam colocar em risco até 4 milhões de toneladas dos embarques brasileiros, o equivalente a cerca de 17% das exportações nacionais de farelo.
Essa quantidade, porém, não representa uma perda comercial já confirmada. Trata-se de uma estimativa do volume potencialmente afetado pelas dificuldades de adequação às novas regras. Mesmo assim, a possibilidade de interrupções no fornecimento brasileiro já estimula a indústria argentina a se preparar para ampliar sua participação no mercado.
Gustavo Idigoras, presidente da Câmara da Indústria de Óleos e Grãos da Argentina (Ciara-CEC), afirmou que seu país poderia preencher uma eventual lacuna de 5 milhões a 6 milhões de toneladas nas exportações brasileiras. A declaração reflete a expectativa do setor argentino diante das dificuldades que os concorrentes poderão enfrentar.
Logística brasileira pode dificultar a rastreabilidade
Uma das principais diferenças entre os dois países está na distância entre as regiões produtoras e os portos de exportação.
No Brasil, especialmente em áreas do Centro-Oeste, a soja pode percorrer mais de 2 mil quilômetros até chegar aos terminais portuários. Durante o trajeto, a carga pode passar por caminhões, ferrovias e hidrovias, o que torna mais complexos o acompanhamento da origem dos grãos e a separação de lotes que cumpram as exigências europeias.
Na Argentina, a produção está concentrada principalmente nas planícies dos Pampas, relativamente próximas do complexo portuário de Rosário. As principais áreas agrícolas ficam a até 350 quilômetros desse polo de exportação, uma condição que pode facilitar a documentação da origem e reduzir os custos de rastreamento.
Essa diferença geográfica não significa que a produção argentina esteja automaticamente livre de riscos ambientais ou que todos os produtores brasileiros tenham dificuldades para comprovar a procedência de seus produtos. O desafio está na extensão e na fragmentação das cadeias de abastecimento: quanto mais etapas e deslocamentos envolvidos, maior tende a ser o esforço para documentar cada lote.
Com as novas regras, a rastreabilidade pode se tornar um fator decisivo de competitividade. Os compradores europeus não precisarão avaliar apenas o preço e a disponibilidade do farelo, mas também a capacidade dos fornecedores de apresentar a documentação necessária e demonstrar conformidade com a legislação.
O que muda com as exigências europeias
O Regulamento Europeu contra o Desmatamento estabelece critérios para a entrada de produtos abrangidos pela norma no mercado da União Europeia, incluindo a soja e seus derivados. O objetivo é impedir a comercialização de mercadorias associadas ao desmatamento ou à degradação florestal.
Para cumprir as exigências, as empresas precisam reunir informações sobre a origem da matéria-prima, incluindo dados geográficos das áreas de produção, além de implementar procedimentos de diligência devida e controles que permitam verificar a conformidade dos produtos.
O cronograma previsto para a aplicação das obrigações aos operadores em geral começa em 30 de dezembro de 2026, com prazo posterior para micro e pequenas empresas. Eventuais mudanças no calendário ou nos procedimentos de implementação também podem influenciar o ritmo de adaptação dos exportadores.
A preparação exige a participação de diferentes elos da cadeia produtiva. Produtores, empresas de processamento, tradings e exportadores precisam integrar informações, manter registros e assegurar que a origem dos grãos possa ser identificada durante o transporte e o processamento industrial.
Para o Brasil, a questão é ampliar essa estrutura em tempo hábil sem elevar os custos operacionais a ponto de comprometer a competitividade do farelo no mercado internacional.
Argentina aposta em sistema de rastreabilidade
A indústria argentina afirma estar mais preparada para atender às exigências europeias. O país conta com o VISEC, sistema que permite acompanhar a soja e a carne bovina desde a produção até a exportação.
Em uma avaliação recente citada pela Reuters, a Fefac classificou a Argentina como um país de baixo risco de interrupções no fornecimento relacionadas ao EUDR. A entidade estima que quase toda a produção argentina de farelo de soja do primeiro semestre de 2027 poderá cumprir os requisitos da regulamentação.
O Brasil, por outro lado, recebeu classificação de risco médio. Entre os obstáculos apontados estão as dificuldades estruturais e logísticas para expandir cadeias produtivas plenamente compatíveis com as regras, especialmente em estados como Mato Grosso, onde a produção está distribuída por grandes áreas.
Essas classificações não significam que a União Europeia tenha proibido a compra de farelo brasileiro nem garantem que todos os produtos argentinos terão acesso automático ao mercado. Elas indicam diferenças no risco estimado de interrupção do abastecimento e podem influenciar as decisões comerciais dos importadores.
Na prática, fornecedores capazes de comprovar a origem de suas mercadorias com maior previsibilidade e menor custo podem conquistar vantagem sobre concorrentes com capacidade produtiva semelhante, mas que enfrentem mais dificuldades para reunir a documentação exigida.
Possíveis impactos vão além do mercado europeu
Uma eventual redução das exportações brasileiras para a União Europeia não significaria necessariamente que todo o volume afetado deixaria de ser vendido no exterior. Parte do farelo poderia ser direcionada a outros destinos, enquanto os exportadores argentinos ampliariam o fornecimento aos compradores europeus.
Essa reorganização, no entanto, poderia alterar os fluxos comerciais, os diferenciais de preços e os custos logísticos. Se o Brasil precisasse disputar outros mercados com maior intensidade, poderia enfrentar condições de venda diferentes das obtidas na Europa.
O impacto também alcançaria a indústria de processamento de soja. A produção e a exportação de farelo dependem da oferta de grãos, da demanda por derivados, dos custos industriais e do acesso aos mercados consumidores. Uma perda de competitividade em um destino importante poderia exigir mudanças nas estratégias comerciais e logísticas, mesmo que existissem compradores em outras regiões.
A Argentina parte de uma posição relevante nesse setor. O país é o maior exportador mundial de farelo de soja e embarcou aproximadamente 27 milhões de toneladas em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura argentino. Uma parcela significativa de suas vendas já atende aos mercados asiáticos.
Caso os exportadores argentinos direcionem mais cargas para a Europa, poderá ocorrer uma redistribuição de volumes entre diferentes regiões. Assim, o movimento não necessariamente representaria apenas uma substituição direta do produto brasileiro pelo argentino, mas uma reorganização mais ampla do comércio internacional de farelo de soja.
Brasil precisa transformar rastreabilidade em vantagem competitiva
O principal desafio para o Brasil será demonstrar que consegue continuar abastecendo o mercado europeu sem perder competitividade por causa dos custos de comprovação da origem da matéria-prima.
Para isso, será necessário ampliar os sistemas de monitoramento, integrar informações entre produtores e exportadores e garantir que as cargas compatíveis com as exigências europeias possam ser identificadas e separadas ao longo da cadeia produtiva.
A questão central não se limita a verificar se a soja foi produzida em uma área sem desmatamento. Também será necessário comprovar, de maneira consistente e auditável, a procedência da matéria-prima que chega ao comprador europeu.
A indústria brasileira precisará identificar onde estão os principais gargalos, que podem envolver a coleta de informações nas propriedades rurais, a documentação dos fornecedores, a mistura de lotes durante o processamento, o transporte ou os sistemas de controle utilizados pelas empresas.
A capacidade de superar essas dificuldades poderá influenciar a posição do país em um dos seus mercados relevantes para o farelo de soja. Enquanto o Brasil trabalha para adaptar uma cadeia produtiva extensa e complexa, a Argentina tenta transformar a proximidade entre as áreas agrícolas e os portos, aliada à rastreabilidade, em uma oportunidade para ampliar suas exportações.
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