Cientistas recuperam funcionamento de rins após um ano congelados a 150 graus negativos
há 10 horas
3 min de leitura
Imagem: Ryan Kissinger/NIAID/NIH – Domínio público
Pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, alcançaram um resultado que poderá representar um avanço importante para a medicina de transplantes. Pela primeira vez em experimentos dessa escala, cientistas conseguiram recuperar sinais de funcionamento de rins de porcos preservados durante até um ano a uma temperatura de 150 graus Celsius negativos.
Após o reaquecimento e o transplante, os órgãos voltaram a receber sangue de maneira uniforme e começaram a produzir urina, demonstrando a recuperação de funções essenciais. A descoberta foi apresentada em um estudo divulgado no dia 14 de outubro, no repositório científico bioRxiv.
O resultado chama atenção porque uma das maiores dificuldades enfrentadas pela medicina de transplantes é o curto período disponível para conservar órgãos fora do corpo humano. Atualmente, a preservação convencional depende de temperaturas baixas e de procedimentos que retardam a deterioração dos tecidos, mas não conseguem interrompê-la por períodos prolongados.
A nova pesquisa abre a possibilidade de desenvolver tecnologias capazes de armazenar órgãos durante meses ou até anos, permitindo que sejam utilizados quando houver necessidade e condições adequadas para o transplante.
Tecnologia evita formação de cristais de gelo nos órgãos
O procedimento utilizado pelos pesquisadores é conhecido como vitrificação, uma técnica de preservação em temperaturas extremamente baixas que busca impedir a formação de cristais de gelo dentro dos tecidos.
No congelamento convencional, esses cristais podem danificar células, vasos sanguíneos e estruturas delicadas dos órgãos, comprometendo seu funcionamento após o descongelamento.
Para evitar esse problema, os cientistas utilizaram substâncias crioprotetoras que ajudam a preservar as estruturas celulares durante o resfriamento.
Os rins foram submetidos a um processo controlado até atingir aproximadamente 150 graus negativos, temperatura na qual puderam permanecer armazenados por períodos prolongados.
O maior desafio, entretanto, estava no reaquecimento. A recuperação de órgãos de grande porte exige que a temperatura aumente de maneira suficientemente rápida e uniforme para evitar danos causados por diferenças térmicas entre suas regiões.
Para superar essa dificuldade, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia conhecida como nanowarming, ou nanoaquecimento, que emprega nanopartículas e campos eletromagnéticos para aquecer os tecidos de forma controlada.
A combinação das técnicas permitiu recuperar rins com dimensões próximas às de órgãos humanos, cerca de cem vezes maiores do que aqueles utilizados em experimentos anteriores com roedores.
Órgãos voltaram a produzir urina após transplante
Depois do período de armazenamento, os rins foram reaquecidos e submetidos a avaliações para verificar suas condições de funcionamento.
Os pesquisadores analisaram a circulação sanguínea, a atividade metabólica dos tecidos e a capacidade dos órgãos de realizar funções relacionadas à eliminação de substâncias.
Os resultados mostraram que o sangue conseguiu circular novamente pelos vasos dos rins preservados, enquanto as células apresentaram sinais de atividade metabólica.
Após o transplante experimental, os órgãos também começaram a produzir urina, um indicador importante de recuperação funcional.
Os resultados foram considerados relevantes porque demonstram que a preservação prolongada em temperaturas extremamente baixas não impediu completamente a retomada de funções renais.
Entretanto, os cientistas destacam que a produção de urina não comprova, isoladamente, que os rins recuperaram todas as suas capacidades ou que conseguiriam manter um organismo vivo durante longos períodos.
Descoberta pode ampliar disponibilidade de órgãos
A possibilidade de conservar órgãos por meses ou anos poderá provocar mudanças importantes na organização dos sistemas de transplantes.
Atualmente, o tempo limitado de preservação exige uma grande mobilização de equipes médicas, transportadoras e hospitais para que um órgão seja retirado de um doador e transplantado em um receptor compatível no menor prazo possível.
Essa necessidade de rapidez também representa um desafio para regiões distantes dos principais centros especializados.
Caso a tecnologia seja aperfeiçoada e demonstrada como segura, a preservação prolongada poderá facilitar o transporte de órgãos entre diferentes localidades e ampliar o período disponível para a realização dos procedimentos.
Outra possibilidade seria a criação de bancos de órgãos destinados a transplantes, permitindo armazenar estruturas biológicas previamente preservadas para utilização futura.
Esse modelo poderia oferecer mais tempo para avaliar a compatibilidade entre doadores e receptores e organizar procedimentos cirúrgicos.
Ainda assim, essas aplicações permanecem como perspectivas futuras e dependem de novas etapas de pesquisa.
Comentários