Coluna Fatos e Versões com Rodrigo Silva Fernandes 07/01/2026
gazetadevarginhasi
há 12 horas
8 min de leitura
RODRIGO SILVA FERNANDES é advogado e articulista político da Gazeta escreve as quartas e sextas. Email: Rs.fernandes@fiemg.com.br
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo
O ano de 2026 começou com destaque na mídia para o presidente da Câmara Marquinhos da Cooperativa. Logo ele que disse em vídeo tantos impropérios contra este jornalista, acusou a imprensa, inclusive atacando fisicamente uma equipe de reportagem de TV, agora começa o ano sendo manchete por conta de irregularidades que ele mesmo cometeu! O próprio presidente da Câmara, Marquinho da Cooperativa assumiu publicamente diversas irregularidades, dizendo estar dirigindo caminhonete com documentação irregular, dirigindo veículo automotor na contramão de direção, com o para brisas quebrado e por fim, dirigir utilizando celular, o que inclusive gerou acidente. Um vídeo que foi divulgado mostrando Marquinho da Cooperativa e presidente da Câmara, batendo numa caçamba momentos antes do atropelamento ocorrido próximo ao Centro de Eventos da Prefeitura de Varginha na virada de ano. Mesmo que não foquemos nas infrações graves de trânsito cometidas pelo presidente da Câmara, o fato do mesmo atropelar uma pessoa e evadir do local sem prestar socorro é algo que pesa contra a personalidade do motorista. Afinal estamos falando da vida do jovem, Luiz Felipe da Silva Lisboa, de 19 anos, que ficou estirado na pista e poderia ter morrido. Por sorte, foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros Militar e levado para o Hospital Bom Pastor, onde recebeu atendimento médico.
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 02
Inicialmente vale dizer que a omissão de socorro médico emergencial, por parte de uma autoridade representante do povo, mostra que a consideração desta autoridade pela vida humana e seu caráter são questionáveis! E se os ferimentos fossem mais graves? E se populares e o Corpo de Bombeiros não tivessem aparecido para o resgate? Também devemos dizer que o senso de responsabilidade do presidente da Câmara de Varginha esta abalado, pois tendo ou não bebido, como pode o motorista “não ver ou sentir o impacto de um atropelamento”? Uma pessoa com tais deficiências não pode estar apta a dirigir, dai a irresponsabilidade de tomar a direção nestas condições. A reprovabilidade da conduta atinge seu grau máximo na injustificável omissão de socorro. Após Marquinho colidir violentamente contra o jovem Luiz Felipe e projetá-lo ao solo, e Marquinho - que investido do mandato de Vereador, exerce a Chefia deste Poder Legislativo como seu Presidente - absteve-se de prestar qualquer socorro. Ademais, depois do atropelamento, o presidente da Câmara de Varginha foi procurado por policiais em sua chácara, onde foi encontrado em situação delicada, segundo as informações do boletim de ocorrências. A Polícia Militar, que conta com testemunha e vídeo que documenta o momento, diz que Marquinho foi visto com voz pastosa e fala desconexa, sinais claramente de uma pessoa alcoolizada. A Polícia Militar relata inclusive no Boletim, que o presidente da Câmara de Varginha, estava exaltado e precisou ser contido, tendo que ser levado à delegacia no compartimento de segurança da viatura. A Polícia Militar cumpriu exatamente o que diz a lei na abordagem e condução de Marquinhos, talvez tendo até mais “cuidado e zelo com o político, por tratar-se do presidente da Câmara”. Por certo que se fosse um “cidadão comum, sem credenciais políticas, não teria a mesma paciência por parte dos policiais”!
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 03
Já na delegacia e passando por todo o processo burocrático da prisão, Marquinho da Cooperativa contou com acompanhamento de sua advogada. Obviamente que sem o prejuízo de “outros apoios estranhos ao mundo jurídico”, ou seja, “amigos que tentaram dar “carteirada”e fizeram ligações ao delegado, integrantes do mundo jurídico e até para vereadores a fim de agendar reunião informal que ocorreu na Câmara na última segunda. Seja por péssima orientação jurídica do que falar ou como proceder, o presidente da Câmara parece que vem se afundando cada dia mais em histórias que vem sendo desmentidas pelas provas que vem aparecendo. Vale destacar que quando do atropelamento e prisão do presidente da Câmara, o Legislativo não se pronunciou, nenhuma nota oficial foi divulgada, mesmo com o conhecimento público dos fatos amplamente divulgados por toda Minas Gerais. A assessoria de Comunicação do Legislativo foi procurada na sexta-feira, dia 02/01, contudo não havia posicionamento oficial da Câmara, nesta data, boa parte dos integrantes do Legislativo já tinham conhecimento e acompanhavam os fatos. Todavia, ainda respondendo pela Presidência da Câmara de Varginha, o presidente estava preso e dormindo no presídio local. Por sorte não houve nenhum caso urgente no Legislativo ou documento que precisasse da assinatura do presidente da Câmara. Do contrário, o diretor geral da Casa, Lourival Oliveira, precisaria ir ao presídio colher a assinatura de seu presidente! Isso talvez não combinasse com o decoro do Legislativo, ou mesmo com a expectativa do cidadão varginhense que escolheu seu representante na Câmara!
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 04
Depois de inúmeras articulações e telefonemas, o pagamento de R$ 10 mil em fiança, o presidente da Câmara saiu do presídio. Deixou as grades e não quis falar com a imprensa, que o aguardava na porta. A esta altura a imagem do presidente da Câmara de Varginha e de todo o Legislativo municipal já estava estampada em toda Minas Gerais pelo atropelamento e omissão de socorro ao jovem Luiz Felipe! Também na esteira destes fatos, veio a tona outros momentos em que o presidente da Câmara foi parar na Justiça. Agressões, acordo judicial etc, Marquinho da Cooperativa tem ficha criminal, e agora pode incluir mais um fato embaraçoso e várias inflações graves de trânsito na ficha. Ainda no final de semana, várias movimentações internas no Legislativo reverberavam as manchetes da imprensa que noticiavam os fatos, mas ainda sem nenhuma manifestação oficial do Legislativo ou dos vereadores, principalmente da base de apoio a Marquinhos e ao governo municipal. Na segunda, 05 de janeiro, o presidente da Câmara, já no uso de toda a estrutura estatal do município, agendará coletiva e contatava aliados para o enorme desgaste que vinha sofrendo. Uma reunião informal foi comunicada aos vereadores, contudo alguns não participaram do encontro. Na reunião com os colegas, Marquinho tentou se explicar, deu seus motivos, disse que não estava bêbado, que não fugiu e chegou a apresentar um laudo do Hospital Bom Pastor dizendo que não estava alcoolizado. Nem todos os presentes na reunião acreditaram, mas todos destacaram a preocupação com a escalada dos acontecimentos e sua repercussão.
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 05
Ainda na segunda, dia 05/01, pela manhã o jovem Luiz Felipe da Silva Lisboa, por meio de seu advogado de defesa, protocolou pedido de cassação de mandato contra Marquinho da Cooperativa, por quebra de decorro parlamentar. No documento protocolado na Câmara, a defesa de Luiz Felipe alega que “A reiteração de atitudes hostis e desrespeitosas perante autoridades e cidadãos solidifica a convicção de que Marquinho da Cooperativa não possui a idoneidade moral nem o equilíbrio emocional necessários para a representação política, configurando uma mácula indelével à imagem desta Egrégia Casa Legislativa, o que impõe a rigorosa aplicação das sanções previstas no Art. 70, inciso lll, do Decreto-Lei nº 201167”. No pedido de cassação de mandato, a defesa ainda alega “A condução do Presidente desta Casa Legislativa no 'guarda-presos' de uma viatura policial, motivada por seu próprio descontrole e agressividade, cristaliza a mais absoluta quebra de decoro parlamentar, ferindo de morte a imagem da Câmara Municipal de Varginha perante a sociedade. Esta é a parte mais contundente da denúncia, pois trata da submissão do Poder Legislativo ao Poder Judiciário em decorrência de atos criminosos. O fato de o Presidente da Câmara estar sob medidas cautelares e ter tido sua prisão ratificada em audiência de custódia” diz o documento já em posse do Legislativo para análise. Cabe agora ao plenário da Câmara analisar o pedido, cumulativamente aos muitos fatos e notícias que estão vinda a tona para votar sobre a possibilidade ou não de continuidade de Marquinho como presidente e representante máximo da Câmara de Vereadores na cidade e mesmo com integrante do poder Legislativo.
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 06
No dia 05/01, segunda, o presidente da Câmara concedeu entrevista a imprensa, que compareceu em peso no Legislativo para saber o que o político tinha a falar em sua defesa. Todavia, a fala do presidente da Câmara tinha mais ataques e contestações do que desculpas e motivos que justificassem os fatídicos fatos. Na entrevista o presidente da Câmara disse que “não se recorda do atropelamento, mas que não teria fugido, visto que foi para sua propriedade depois dos fatos”. Ele alegou ainda em entrevista coletiva que não teria ingerido bebida alcoólica, chegando a apresentar um laudo do Hospital Bom Pastor, assinado por profissional médico, dizendo que quando da consulta no amanhecer do dia 01 de janeiro “estaria sem sinais de embriaguez”. Na mesma entrevista, Marquinho insinuou que os policiais militares estariam mentindo sobre seu estado/comportamento quando da abordagem policial, que foi gravada e com a presença de testemunha. Quanto ao atropelamento propriamente, o presidente da Câmara disse que o local onde ocorreram os fatos é muito escuro e que já teria solicitado ao prefeito que providenciasse a melhoria da iluminação pública no local, a fim de evitar novas tragédias. Ou seja, segundo a fala do presidente da Câmara, parte da responsabilidade pelo atropelamento “é do prefeito que não iluminou adequadamente a via”. Vale destacar que no boletim da ocorrência consta que o veículo de Marquinhos estaria na contra mão de direção. A Prefeitura de Varginha não negou ou se manifestou oficialmente sobre a acusação do presidente da Câmara.
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 07
Depois da entrevista de Marquinhos da Cooperativa, a imprensa recebeu dois vídeos que fragilizam os argumentos do presidente da Câmara. No primeiro vídeo, gravado quando Marquinhos estava já na viatura policial, na madrugada da prisão, é possível ver o presidente da Câmara em fala desconexa e voz pastosa, tipicamente de pessoas alcoolizadas. No vídeo Marquinho tenta falar onde estaria na noite dos fatos, mas não consegue se expressar bem. No segundo vídeo, que também foi divulgado publicamente, é possível ver o presidente da Câmara em uma festa num estabelecimento da cidade. Várias pessoas aparecem bebendo e festejando, o presidente da Câmara parece estar com a mesma roupa do dia do atropelamento, o que enseja acreditar que os vídeos teriam sido gravados na mesma data. A divulgação dos vídeos, principalmente o vídeo do presidente da Câmara na viatura policial, desmonta a tese de Marquinhos de que não tinha sinais de embriaguez quando da prisão no dia do atropelamento. Além disso, coloca em cheque a eficiência e seriedade das análises realizadas no Hospital Bom Pastor em casos semelhantes, pelo menos pelo médico que teria atendido Marquinhos e assinado o laudo apresentado pelo presidente da Câmara na entrevista coletiva. Vale pontuar que o laudo apresentado por Marquinhos não se trata de um exame de sangue para verificar a existência de álcool na corrente sanguínea, mas somente uma análise superficial do médico se no momento da consulta, haveria ou não sinal de embriaguez no paciente. A consulta de Marquinhos no Hospital Bom Pastor, segundo o laudo apresentado, teria ocorrido depois das 4 da manhã, sendo que o atropelamento teria ocorrido por volta da 01 da manhã do dia primeiro de janeiro.
A agonia de Marquinho e a imagem do Legislativo – 08
A sociedade e a imprensa estão acompanhando de perto os acontecimentos e alguns vereadores já foram procurados para falar o que pensam sobre os fatos que atingem diretamente a imagem do Legislativo e de todos os seus integrantes. Será que o costumeiro espírito corporativo do Legislativo, entre seus integrantes, vai novamente buscar acobertar falhas do presidente da Câmara? Vamos acompanhar, por certo tem muitas informações ainda por vir neste polêmico caso.