Custo dos juros da dívida rural sobe 191% em quatro anos e inadimplência bate recorde; crédito a taxas de mercado pressiona produtores
há 49 minutos
2 min de leitura
Reprodução/ IA
O peso dos juros sobre a dívida rural brasileira mais do que triplicou em quatro anos. Passou de R$ 34 bilhões em 2021 para R$ 99 bilhões em 2025, valores corrigidos — alta de 191%. A taxa média das novas operações de crédito rural para pessoas físicas subiu de 6,3% para 12,2% ao ano no mesmo período. Os dados são do Cepea, centro de pesquisa da Esalq/USP, e revelam uma transformação profunda no financiamento do campo: o crédito a taxas de mercado, que representava apenas 5% das contratações em 2013, chegou a 40% em 2025.
O impacto dessa mudança é visível nos atrasos. Em agosto de 2026, 9,69% das parcelas estavam vencidas há mais de 90 dias — o maior índice da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. O problema não é uniforme: nas linhas com taxas controladas, a inadimplência é de 3,8%; nas operações a preço de mercado, salta para 17,6%. Embora respondam por 43% do saldo total, essas últimas concentram 77% de todo o valor em atraso. O endividamento não cresceu tanto por volume, mas ficou muito mais caro.
A pressão vem de dois lados: juros mais altos e renda menor. Os preços reais dos grãos recuaram 28% entre 2021 e 2025, reduzindo a renda do ramo agrícola de R$ 599 bilhões para R$ 539 bilhões. A pecuária, por outro lado, avançou de R$ 270 bilhões para R$ 331 bilhões no mesmo período. O custo dos insumos ampliou a desigualdade: em 2010-2019, eram necessárias 16,7 sacas de soja para comprar uma tonelada de adubo; em 2025, o número subiu para 29,1 sacas.
A dimensão da crise vai além dos atrasos: a carteira problemática soma R$ 205 bilhões, ou seja, 23,8% de todo o crédito rural ativo. Desse total, R$ 105 bilhões já foram renegociados, R$ 31 bilhões prorrogados e R$ 48,5 bilhões inadimplentes. A Medida Provisória 1.376, criada para facilitar a reestruturação, havia atingido apenas R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro — cerca de 5% dos R$ 120 bilhões esperados. Dívidas de investimento receberam apenas R$ 79 milhões em renegociação, 1,3% do total.
Os pesquisadores alertam que a solução não pode ser genérica. É preciso separar produtores com dificuldades temporárias de caixa daqueles cuja atividade já não gera renda suficiente para cobrir compromissos. Estender prazos para todos pode adiar, mas não resolver, o problema. O campo brasileiro enfrenta não apenas um ciclo de preços baixos, mas uma mudança estrutural de custos que exige resposta igualmente profunda.
Comentários