Desgaste econômico no campo ameaça base rural de Trump nas eleições; custos, tarifas e preços pressionam eleitores que garantiram vitórias republicanas
47min
2 min de leitura
Reprodução
Uma das bases mais sólidas do apoio a Donald Trump está fragilizada às vésperas das eleições de meio de mandato. O eleitorado rural dos Estados Unidos, que entregou 69% dos votos ao republicano em 2024 — ampliação da vantagem que vinha crescendo desde 2016 —, demonstra crescente insatisfação com custos de produção disparados, incertezas comerciais e preços ao consumidor que não revertem em margem para o produtor. Pesquisa KFF/AP revela que 27% dos eleitores rurais republicanos já desaprovam a condução da economia; entre esses, apenas 59% dizem ter certeza de ir às urnas, ante 79% dos que aprovam — diferença de 20 pontos que pode definir cadeiras no Congresso.
A pressão sobre o campo vem de frentes múltiplas. A guerra no Oriente Médio elevou preços de fertilizantes, diesel e frete, comprimindo margens. O índice de confiança da Universidade Purdue recuou de 135 para 123 pontos; 52% dos produtores apontam insumos como maior preocupação, recorde da série. Tarifas aplicadas pelo governo e retaliações de parceiros comerciais, notadamente a China, reduziram mercados de exportação — perdas que somaram mais de US$ 27 bilhões no primeiro mandato e renovam receios. Enquanto isso, os preços dos alimentos sobem nos supermercados, mas o produtor não vê esse retorno: a oferta restrita de gado — rebanho menor desde 1951 — eleva o preço da carne sem fortalecer a renda do criador.
Em resposta, o governo anunciou pacotes de ajuda nos últimos dias: US$ 15 bilhões** para perdas de safra e custeio, mais US$ 13,7 bilhões em financiamento, somando quase US$ 29 bilhões sem detalhamento claro sobre liberação. Aos pagamentos regulares, soma-se o programa Farmer Bridge Assistance, elevando os repasses federais ao setor a **US$ 47,4 bilhões em 2026, alta de quase 70% sobre o ano anterior. A generosidade eleitoral, porém, chega tardiamente para reverter meses de desgaste: a frustração não é só financeira, mas de confiança — e o que está em risco é mais a presença nas urnas do que a migração de votos para o partido adversário.
Para o Brasil, esse cenário traz oportunidade estrutural. O país já ultrapassou os EUA nas exportações de commodities agropecuárias e agroindustriais: US$ 137,7 bilhões em 2024, US$ 14,4 bilhões à frente. A liderança americana persiste apenas em produtos de maior valor agregado — alimentos preparados, frutas, bebidas —, onde exportou US$ 75,5 bilhões contra US$ 10,7 bilhões brasileiros. O desafio para o Brasil não é só igualar números, mas avançar na cadeia de valor. Enquanto o campo americano luta para se manter competitivo, o agronegócio brasileiro consolida posição de liderança global — e a política eleitoral dos EUA pode acelerar essa transição.
Comentários