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Enquanto Argentina libera militares para trabalhar de Uber, relatos de “sargento motorista de aplicativo” chegam à ESA

  • há 39 minutos
  • 6 min de leitura
Enquanto Argentina libera militares para trabalhar de Uber, relatos de “sargento motorista de aplicativo” chegam à ESA
Foto-Divulgação/Enquanto a Argentina autorizou militares a exercer determinadas atividades civis fora do expediente, incluindo trabalhos como motoristas de Uber e entregadores, no Brasil relatos de sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo passaram a aparecer em discussões entre alunos e familiares ligados à Escola de Sargentos das Armas (ESA).
A discussão sobre remuneração e atratividade da carreira militar ganhou contornos diferentes na Argentina e no Brasil. Enquanto o governo de Javier Milei flexibilizou as regras para que militares argentinos possam exercer atividades civis fora do expediente, incluindo trabalhos como motoristas de aplicativo e entregadores, relatos de sargentos recorrendo a aplicativos para complementar a renda passaram a circular entre alunos e familiares ligados à Escola de Sargentos das Armas (ESA), no Brasil.

Na Argentina, a flexibilização foi adotada em junho de 2026, em meio a um cenário de perda de poder de compra dos militares. Em setembro, o governo anunciou uma recomposição salarial acumulada de 12,22% entre setembro e dezembro.

No Brasil, a situação é juridicamente diferente. O Estatuto dos Militares estabelece que a carreira é caracterizada por atividade continuada e inteiramente dedicada às finalidades das Forças Armadas, além de impor restrições a determinadas atividades comerciais para militares da ativa.

Apesar das diferenças institucionais, o trabalho por aplicativo passou a representar, nos dois países, um elemento de um debate mais amplo sobre salários, qualidade de vida, permanência e atratividade da carreira militar.

Argentina flexibilizou regras para atividades fora dos quartéis
Em junho deste ano, o governo argentino autorizou integrantes das três Forças Armadas a exercer determinadas atividades civis fora do horário de serviço, desde que os trabalhos não interfiram nas obrigações militares nem comprometam questões relacionadas à segurança nacional.

Entre as atividades mencionadas estão o transporte por aplicativo, serviços de entrega e segurança privada.

A mudança ocorreu em um período marcado pela perda de poder de compra dos militares argentinos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, os vencimentos haviam acumulado perda média de aproximadamente 28% em relação à inflação entre o fim de 2023 e os primeiros meses de 2026.

O cenário também foi associado a casos de endividamento e à necessidade de alguns militares recorrerem a mais de uma atividade profissional.

Antes do novo reajuste, um cabo do Exército argentino recebia remuneração básica equivalente a cerca de US$ 566. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), citados nas reportagens, apontavam que uma família típica precisava de aproximadamente o dobro desse valor para permanecer acima da linha de pobreza.

A possibilidade de exercer uma segunda atividade profissional passou, nesse contexto, a funcionar como uma alternativa para complementar a renda.

Militares argentinos terão reajuste acumulado de 12,22%
Além da flexibilização para atividades civis, o governo argentino anunciou uma nova recomposição salarial para os militares.

Em 1º de setembro, a Casa Rosada informou que os vencimentos terão reajuste acumulado de 12,22% até dezembro de 2026. O primeiro aumento será de 6,9% em setembro, seguido por novas atualizações nos meses seguintes.

A medida alcança o pessoal militar independentemente da patente ou graduação e também produz efeitos sobre os militares retirados.

O reajuste foi formalizado pela Resolução Conjunta 44/2026, assinada pelos ministérios da Economia e da Defesa.

Considerando também os reajustes concedidos anteriormente durante o ano, a atualização acumulada dos vencimentos militares argentinos em 2026 se aproxima de 32%, conforme levantamento divulgado pela imprensa argentina.

O governo afirmou que a recomposição será realizada sem comprometer o equilíbrio fiscal.

A sequência das medidas colocou a questão salarial no centro do debate: primeiro, a perda de poder de compra levou militares a buscar fontes adicionais de renda; depois, houve flexibilização para determinadas atividades privadas; agora, uma nova rodada de reajustes foi anunciada.

Comparação entre soldos na Argentina e no Brasil
Os valores pagos a cabos e sargentos nos dois países também ajudam a dimensionar a discussão.

A partir de setembro de 2026, um cabo argentino passa a receber 928.903 pesos, enquanto um sargento recebe 1.118.305 pesos. Para cabo primeiro, o valor é de 1.003.616 pesos, e para sargento primeiro, 1.245.646 pesos.

Na conversão utilizada no levantamento, esses valores equivalem aproximadamente a R$ 5,2 mil e R$ 7 mil.

No Brasil, a tabela oficial de soldos vigente desde janeiro de 2026 estabelece R$ 2.869 para cabo engajado, R$ 4.177 para terceiro-sargento e R$ 5.988 para primeiro-sargento.
Graduação
Argentina – setembro/2026
Conversão aproximada
Brasil – soldo-base 2026
Cabo
928.903 pesos
R$ 5.200
R$ 2.869 – Cabo engajado
Cabo primeiro
1.003.616 pesos
R$ 5.620
R$ 2.869 – Cabo engajado*
Sargento
1.118.305 pesos
R$ 6.260
R$ 4.177 – 3º Sargento
Sargento primeiro
1.245.646 pesos
R$ 6.970
R$ 5.988 – 1º Sargento
*As estruturas hierárquicas das Forças Armadas dos dois países não possuem correspondência perfeita. A comparação serve apenas como referência aproximada entre os níveis.

Pela conversão cambial utilizada, o soldo de um cabo argentino chega a aproximadamente R$ 5,2 mil, enquanto o soldo-base de um cabo engajado no Brasil é de R$ 2.869. A diferença nominal é de cerca de R$ 2.331, equivalente a aproximadamente 81%.

Entre os sargentos, a distância é menor. Os 1.118.305 pesos de um sargento argentino correspondem a aproximadamente R$ 6.260, contra R$ 4.177 de soldo-base de um terceiro-sargento brasileiro, uma diferença próxima de 50%.

Já entre os primeiros-sargentos, a diferença fica em torno de 16%: aproximadamente R$ 6.970 na Argentina contra R$ 5.988 no Brasil.

O comparativo, no entanto, não representa necessariamente a remuneração total recebida pelos militares. No Brasil, adicionais e outras parcelas podem elevar os vencimentos mensais. Também existem diferenças de tributação, custo de vida, benefícios e poder de compra entre os países.

Assim, a comparação demonstra apenas que, na conversão cambial direta utilizada no levantamento, alguns vencimentos básicos argentinos superam os soldos-base brasileiros considerados como referência.

Relatos de “sargento Uber” chegam às discussões da ESA
No Brasil, a discussão aparece de maneira diferente.
Reportagem publicada em agosto pela Revista Sociedade Militar reuniu relatos de alunos e familiares relacionados a desligamentos ocorridos durante o período básico da Escola de Sargentos das Armas.

A desistência durante a formação não é apresentada como um fenômeno novo. O curso envolve disciplina militar, exigências físicas e psicológicas, serviços, estudos e mudanças significativas na rotina dos alunos.

O aspecto que ganhou destaque nos relatos é a discussão sobre as condições financeiras da carreira.

Segundo a publicação, relatos de sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo fora do expediente passaram a fazer parte das conversas entre alunos e familiares sobre remuneração, motivação e perspectivas profissionais.

Em alguns casos, estudantes teriam começado a questionar a permanência na carreira após ouvir relatos de militares já formados sobre dificuldades financeiras e desgaste profissional.

A reportagem também registrou o relato de uma mãe de aluno segundo o qual três estudantes teriam deixado a formação no mesmo dia.

Essas informações, contudo, não permitem afirmar que o trabalho por aplicativo seja responsável pelos desligamentos na ESA ou que represente a realidade financeira de todos os sargentos do Exército.

Os relatos indicam, porém, que a remuneração e a qualidade de vida passaram a fazer parte das avaliações de alguns jovens que ainda estão decidindo se permanecerão na carreira militar.

Trabalho por aplicativo virou símbolo de um debate maior
Mais do que Uber ou Rappi, o debate envolve questões relacionadas à capacidade das Forças Armadas de atrair, formar e manter seus profissionais.

Quando militares procuram uma segunda fonte de renda ou quando candidatos em formação passam a questionar se a carreira oferece condições financeiras consideradas adequadas, a discussão deixa de se limitar ao valor do salário.

Entram em cena fatores como retenção de profissionais, disponibilidade para o serviço, qualidade de vida e capacidade de atrair novos candidatos.

Na Argentina, o governo adotou uma solução institucional ao permitir determinadas atividades civis fora do expediente e, posteriormente, anunciou novos reajustes.

No Brasil, o cenário jurídico é diferente. O Estatuto dos Militares caracteriza a carreira como atividade continuada e inteiramente voltada às finalidades das Forças Armadas, além de estabelecer restrições para determinadas atividades comerciais exercidas por militares da ativa.

Por isso, uma eventual ampliação das possibilidades de trabalho privado para militares brasileiros precisaria considerar as regras específicas da legislação nacional.

Debate chega aos jovens que estão entrando na carreira
Um dos pontos mais sensíveis da discussão brasileira é que os relatos sobre necessidade de renda complementar não aparecem apenas entre militares com muitos anos de serviço.

Eles também chegaram ao ambiente de formação de jovens que estão justamente avaliando seu futuro profissional.

A ESA é uma das principais portas de entrada para a carreira de sargento. Nesse contexto, informações sobre remuneração, rotina, transferências, qualidade de vida e possibilidades profissionais podem influenciar a percepção dos alunos sobre a permanência na instituição.

Isso não significa que a carreira militar tenha perdido sua atratividade de forma generalizada. Estabilidade, formação profissional, progressão e identidade institucional continuam sendo fatores considerados por milhares de candidatos.

A comparação com a Argentina, entretanto, mostra que a discussão sobre renda complementar ganhou espaço no debate público.

Enquanto o governo argentino já regulamentou a possibilidade de determinadas atividades civis para militares, no Brasil relatos sobre sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo passaram a aparecer nas conversas de alunos e familiares ligados à formação.

O cenário coloca em evidência uma questão que vai além dos aplicativos: até que ponto remuneração e qualidade de vida podem influenciar a permanência dos militares e a decisão de jovens que ainda estão escolhendo seguir carreira nas Forças Armadas.
Fonte: SociedadeMilitar

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Gazeta de Varginha

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