Enquanto Argentina libera militares para trabalhar de Uber, relatos de “sargento motorista de aplicativo” chegam à ESA
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A discussão sobre remuneração e atratividade da carreira militar ganhou contornos diferentes na Argentina e no Brasil. Enquanto o governo de Javier Milei flexibilizou as regras para que militares argentinos possam exercer atividades civis fora do expediente, incluindo trabalhos como motoristas de aplicativo e entregadores, relatos de sargentos recorrendo a aplicativos para complementar a renda passaram a circular entre alunos e familiares ligados à Escola de Sargentos das Armas (ESA), no Brasil.
Na Argentina, a flexibilização foi adotada em junho de 2026, em meio a um cenário de perda de poder de compra dos militares. Em setembro, o governo anunciou uma recomposição salarial acumulada de 12,22% entre setembro e dezembro.
No Brasil, a situação é juridicamente diferente. O Estatuto dos Militares estabelece que a carreira é caracterizada por atividade continuada e inteiramente dedicada às finalidades das Forças Armadas, além de impor restrições a determinadas atividades comerciais para militares da ativa.
Apesar das diferenças institucionais, o trabalho por aplicativo passou a representar, nos dois países, um elemento de um debate mais amplo sobre salários, qualidade de vida, permanência e atratividade da carreira militar.
Argentina flexibilizou regras para atividades fora dos quartéis
Em junho deste ano, o governo argentino autorizou integrantes das três Forças Armadas a exercer determinadas atividades civis fora do horário de serviço, desde que os trabalhos não interfiram nas obrigações militares nem comprometam questões relacionadas à segurança nacional.
Entre as atividades mencionadas estão o transporte por aplicativo, serviços de entrega e segurança privada.
A mudança ocorreu em um período marcado pela perda de poder de compra dos militares argentinos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, os vencimentos haviam acumulado perda média de aproximadamente 28% em relação à inflação entre o fim de 2023 e os primeiros meses de 2026.
O cenário também foi associado a casos de endividamento e à necessidade de alguns militares recorrerem a mais de uma atividade profissional.
Antes do novo reajuste, um cabo do Exército argentino recebia remuneração básica equivalente a cerca de US$ 566. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), citados nas reportagens, apontavam que uma família típica precisava de aproximadamente o dobro desse valor para permanecer acima da linha de pobreza.
A possibilidade de exercer uma segunda atividade profissional passou, nesse contexto, a funcionar como uma alternativa para complementar a renda.
Militares argentinos terão reajuste acumulado de 12,22%
Além da flexibilização para atividades civis, o governo argentino anunciou uma nova recomposição salarial para os militares.
Em 1º de setembro, a Casa Rosada informou que os vencimentos terão reajuste acumulado de 12,22% até dezembro de 2026. O primeiro aumento será de 6,9% em setembro, seguido por novas atualizações nos meses seguintes.
A medida alcança o pessoal militar independentemente da patente ou graduação e também produz efeitos sobre os militares retirados.
O reajuste foi formalizado pela Resolução Conjunta 44/2026, assinada pelos ministérios da Economia e da Defesa.
Considerando também os reajustes concedidos anteriormente durante o ano, a atualização acumulada dos vencimentos militares argentinos em 2026 se aproxima de 32%, conforme levantamento divulgado pela imprensa argentina.
O governo afirmou que a recomposição será realizada sem comprometer o equilíbrio fiscal.
A sequência das medidas colocou a questão salarial no centro do debate: primeiro, a perda de poder de compra levou militares a buscar fontes adicionais de renda; depois, houve flexibilização para determinadas atividades privadas; agora, uma nova rodada de reajustes foi anunciada.
Comparação entre soldos na Argentina e no Brasil
Os valores pagos a cabos e sargentos nos dois países também ajudam a dimensionar a discussão.
A partir de setembro de 2026, um cabo argentino passa a receber 928.903 pesos, enquanto um sargento recebe 1.118.305 pesos. Para cabo primeiro, o valor é de 1.003.616 pesos, e para sargento primeiro, 1.245.646 pesos.
Na conversão utilizada no levantamento, esses valores equivalem aproximadamente a R$ 5,2 mil e R$ 7 mil.
No Brasil, a tabela oficial de soldos vigente desde janeiro de 2026 estabelece R$ 2.869 para cabo engajado, R$ 4.177 para terceiro-sargento e R$ 5.988 para primeiro-sargento.
Graduação | Argentina – setembro/2026 | Conversão aproximada | Brasil – soldo-base 2026 |
Cabo | 928.903 pesos | R$ 5.200 | R$ 2.869 – Cabo engajado |
Cabo primeiro | 1.003.616 pesos | R$ 5.620 | R$ 2.869 – Cabo engajado* |
Sargento | 1.118.305 pesos | R$ 6.260 | R$ 4.177 – 3º Sargento |
Sargento primeiro | 1.245.646 pesos | R$ 6.970 | R$ 5.988 – 1º Sargento |






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