Fim da escala 6x1 leva empresas a rever jornadas, ampliar equipes e investir em automação
há 2 horas
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O fim da escala 6x1 está levando empresas brasileiras a reorganizar suas operações, revisar despesas e buscar alternativas para manter a produtividade sem comprometer a qualidade dos serviços. Com a mudança na legislação trabalhista, que prevê dois dias de descanso por semana e a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas semanais, executivos de diferentes setores avaliam como adaptar as equipes e equilibrar as contas sem reduzir salários.
A nova regra estabelece um período de transição, com mudanças iniciais previstas para dezembro de 2026 e a implementação gradual da jornada de 40 horas até o fim de 2027. Para as empresas, o desafio envolve reorganizar turnos, dimensionar o número de funcionários, contratar profissionais quando necessário e investir em tecnologia para compensar os possíveis aumentos de custos.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 14,9 milhões de trabalhadores que atualmente cumprem a escala 6x1 serão alcançados pela mudança. O impacto tende a ser especialmente relevante em setores que dependem de atendimento contínuo, como comércio, transporte, saúde e alimentação.
Um estudo da Fundação Getulio Vargas, por meio do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), aponta que a jornada média semanal é de 43 horas no comércio e de 43,4 horas no transporte. Os números indicam que essas atividades terão menos margem para ajustes, já que as médias atuais estão próximas do limite de 44 horas e acima da futura jornada máxima.
“Essa não é uma mudança banal. A gente está falando de pessoas”, afirma Jonas Marques, CEO da rede de farmácias Pague Menos, ao comentar os desafios de adaptação.
Pague Menos avalia mudanças no funcionamento das farmácias
Com 1.700 lojas e aproximadamente 28 mil funcionários, a Pague Menos ainda estuda qual modelo de trabalho será adotado para cumprir as novas exigências. Nos últimos meses, a empresa realizou testes com diferentes jornadas para identificar alternativas adequadas às unidades da rede.
Um dos principais desafios está na organização das equipes de farmacêuticos. De acordo com Jonas Marques, uma drogaria precisa contar com quatro profissionais por dia para atender às exigências legais de funcionamento, que determinam a presença de um farmacêutico durante todo o período de abertura.
O executivo afirma que a empresa precisará reorganizar as escalas e, possivelmente, contratar mais trabalhadores. A companhia pretende concluir, nas próximas semanas, um estudo para definir como garantirá dois dias de descanso semanais aos funcionários.
Uma das possibilidades em avaliação é diminuir o número de farmácias que funcionam 24 horas por dia. A medida poderia alterar os hábitos de parte dos consumidores, que talvez precisassem concentrar as compras durante o dia.
“Há lugares em que vou precisar ter mais gente. Mas hoje ninguém está com isso fechado”, afirma Marques, ressaltando que as decisões ainda estão em análise.
Setor de saúde também prevê aumento de despesas
A pressão sobre os custos não se limita às redes de farmácias. Hospitais, clínicas e operadoras de saúde dependem de equipes disponíveis continuamente, inclusive durante a noite, nos fins de semana e nos feriados, o que dificulta a reorganização das jornadas.
Em estudo publicado em 19 de outubro, especialistas do Banco Safra apontaram que o setor deverá enfrentar pressão sobre os custos trabalhistas a partir do fim de 2026. Com a implementação da jornada de 40 horas semanais, o aumento acumulado dos custos no segmento poderá alcançar 10% em relação à força de trabalho originalmente exposta ao regime.
No varejo alimentar, as empresas também estão avaliando diferentes formatos de jornada, incluindo modelos de quatro dias de trabalho por três de descanso (4x3) e de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso (12x36). Outra possibilidade considerada é reduzir o horário de funcionamento de algumas unidades.
Giraffas calcula impacto na folha de pagamento
A rede de alimentação Giraffas, que possui cerca de 400 lojas, também vem testando alternativas para se adequar à nova legislação. O fundador e CEO da companhia, Carlos Guerra, estima que a adoção do modelo 5x2 poderá elevar em 12% os gastos com a folha de pagamento.
Esse aumento representaria um impacto adicional de aproximadamente 2% a 2,5% no faturamento da empresa. A estratégia é absorver parte das despesas e buscar uma configuração de trabalho que reduza a pressão financeira.
Entre as alternativas avaliadas está a jornada 12x36, considerada por Guerra a opção mais viável neste momento. Segundo o empresário, esse modelo provocaria um aumento menor na folha, estimado em 5%.
A adoção, porém, dependeria de um novo acordo coletivo. O executivo afirma que a modalidade permite atender à jornada semanal de 42 horas prevista para a primeira etapa da transição e garante descanso aos domingos. Atualmente, cerca de 20% das unidades da rede já trabalham nesse formato.
A empresa também está investindo em tecnologia para reduzir a necessidade de atendimento presencial em determinadas situações. Um dos projetos envolve um aplicativo que permitiria ao consumidor fazer pedidos diretamente da praça de alimentação, sem depender de um funcionário para iniciar o atendimento.
O estudo da FGV Ibre estima que a mudança na legislação poderá elevar em até 20% o custo da mão de obra. A análise também aponta a possibilidade de uma redução de até 2,9% no Produto Interno Bruto (PIB), além de perdas de produtividade.
Varejista de moda prevê reforçar equipes de distribuição
No setor de moda, uma grande rede varejista está dividindo seu planejamento entre as lojas físicas e os centros de distribuição. A empresa avalia que o maior impacto deverá ocorrer na área logística, que já opera com níveis elevados de produtividade e compromissos rigorosos de entrega, limitando as possibilidades de obter ganhos adicionais no curto prazo.
Uma fonte da companhia, que pediu anonimato, afirma que será necessário revisar os turnos e que a equipe dos centros de distribuição poderá crescer até 10% até que seja possível ampliar a automação.
Segundo a fonte, a adaptação não poderá ser concluída integralmente em apenas 60 dias e dificilmente estará finalizada até o encerramento do prazo de um ano considerado pela empresa para ajustar essa operação.
Para ajudar a financiar o aumento de pessoal na logística, a varejista pretende acelerar a instalação de caixas de autoatendimento nas lojas. O projeto, que ainda estava em fase piloto, já funciona em 10% das 200 unidades da rede, principalmente naquelas com maior fluxo de consumidores.
A intenção é ampliar a presença desses equipamentos para entre 60% e 70% das lojas, reduzindo a quantidade de caixas operados por funcionários.
A empresa ainda calcula se precisará diminuir o quadro de trabalhadores em outras áreas para compensar os novos gastos. Sem nenhuma medida de adaptação, a estimativa é de um impacto negativo de 6% a 7% no Ebitda, indicador utilizado para avaliar o resultado operacional de uma companhia antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Petrobras sente os efeitos nos contratos de terceirização
Na Petrobras, os efeitos da mudança estão relacionados principalmente aos contratos de prestação de serviços. A estatal possui aproximadamente 50 mil empregados próprios, que não serão afetados pela nova regra, mas conta com quase 130 mil trabalhadores contratados por centenas de empresas terceirizadas.
Esses profissionais atuam em diferentes áreas, de plataformas de petróleo em alto-mar a refinarias, e cumprem jornadas variadas. Por isso, a adequação dos contratos poderá exigir mudanças na organização das equipes e na estrutura de custos das prestadoras de serviços.
Uma das empresas que já está fazendo os cálculos é a Resolv, que atua nos segmentos de facilities, higiene hospitalar, segurança e alimentação corporativa. A companhia possui cerca de 10 mil funcionários, dos quais 20% trabalham atualmente na escala 6x1. Os demais estão distribuídos entre os modelos 5x2 e 12x36.
A estimativa inicial é de que a empresa precise aumentar seu quadro de pessoal entre 7% e 10% para manter as operações nas condições atuais. Para tentar reduzir essa necessidade, a Resolv iniciou conversas com seus clientes.
A companhia atende mais de 500 empresas, incluindo universidades, hospitais, shopping centers, operadores logísticos e usinas de açúcar e etanol.
Douglas Imforzato, diretor de gente e gestão da Resolv, explica que cada contrato exige uma avaliação específica. Segundo ele, existem dois caminhos principais: reorganizar o serviço para realizá-lo com menos trabalhadores ou ampliar as equipes para preservar o padrão de qualidade oferecido atualmente.
Caso seja necessário contratar mais funcionários para manter o nível de atendimento, o impacto nos custos poderá chegar a 7%. Inicialmente, a empresa não pretende simplesmente transferir esse aumento aos contratos. A prioridade é encontrar alternativas que atendam às necessidades da prestadora e de seus clientes.
Robôs e drones entram na estratégia de adaptação
A tecnologia aparece como uma das alternativas para diminuir a necessidade de novas contratações. A Resolv já utiliza robôs para realizar tarefas de higienização em hospitais e avalia outras soluções para diferentes segmentos.
Na área de segurança, por exemplo, drones e outros recursos tecnológicos poderão substituir parte do efetivo adicional que seria necessário para manter as operações.
Imforzato ressalta que a adoção dessas ferramentas depende de parcerias com os clientes, inclusive para viabilizar os investimentos. Para o executivo, a mudança pode representar uma oportunidade de rever procedimentos e redesenhar processos que já fazem parte da rotina das empresas.
Outra varejista pretende reorganizar as equipes sem contratar
Enquanto algumas companhias consideram ampliar o quadro de funcionários, outra rede de moda pretende, inicialmente, adaptar as operações com os recursos humanos que já possui.
O CEO da empresa, que também pediu anonimato, afirma que a intenção inicial não é demitir nem contratar trabalhadores. A estratégia consiste em reorganizar as escalas e distribuir as atividades de maneira que seja possível manter o funcionamento das lojas com menos funcionários por unidade.
A rede possui mais de 100 lojas e mais de mil funcionários. Para evitar uma queda na qualidade do atendimento, a companhia pretende investir em treinamento e acelerar o desenvolvimento de um aplicativo que forneça informações aos vendedores e ajude a melhorar a produtividade.
A empresa pretende acompanhar diariamente os resultados das medidas, já que não considera viável ampliar a equipe neste momento. O executivo reconhece, porém, que a estratégia poderá trazer dificuldades para o atendimento presencial.
Ele também avalia que as mudanças podem acelerar a automação e estimular uma migração ainda maior das vendas para os canais digitais, caso o comércio físico se torne mais difícil de operar com a nova configuração de pessoal.
Diante dos diferentes cenários, o fim da escala 6x1 exige que empresas de vários setores encontrem um equilíbrio entre a redução da jornada, a manutenção dos serviços e o controle das despesas. A reorganização das equipes, a adoção de novas tecnologias e a revisão dos horários de funcionamento estão entre as principais alternativas em análise, mas os efeitos financeiros e operacionais dependerão das características de cada negócio.
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