Funcionários do Aeroporto de Guarulhos são suspeitos de facilitar tráfico internacional de drogas
há 6 horas
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Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Funcionários de empresas que atuam no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, são investigados por suspeita de participação em um esquema de tráfico internacional de drogas. Segundo as apurações, trabalhadores com acesso a áreas restritas eram recrutados por organizações criminosas para facilitar a entrada de entorpecentes no terminal e o embarque de cocaína em voos internacionais.
As investigações revelaram diferentes métodos utilizados pelo grupo, incluindo o transporte de malas com drogas, a troca de etiquetas de bagagens e a utilização de acessos de serviço para evitar os controles de segurança. Os episódios mostram como a participação de pessoas com credenciais autorizadas pode ser explorada por criminosos para movimentar carregamentos dentro do aeroporto.
Em uma das ocorrências, uma perseguição terminou com um funcionário detido depois de tentar se esconder no telhado de uma instalação do aeroporto. Na ação, foram apreendidos 33 quilos de cocaína. O caso faz parte de uma série de episódios que expuseram a atuação de grupos criminosos no terminal.
A Polícia Federal investiga a participação de trabalhadores de diferentes setores, incluindo equipes de limpeza e auxiliares de transporte. A suspeita é que eles tenham sido aliciados para receber os entorpecentes, movimentar as bagagens e encaminhar a carga até aeronaves que seguiriam para destinos no exterior.
Rotas clandestinas e falhas nos controles de segurança
As imagens de câmeras de segurança analisadas durante as investigações revelaram diferentes formas de movimentação dos entorpecentes dentro e nas proximidades do aeroporto.
Em uma das ocorrências, a droga foi transportada na caçamba de um veículo de serviço da própria concessionária até uma casa de máquinas. O episódio terminou com a perseguição de um funcionário, que tentou se esconder no telhado da instalação. A abordagem resultou na apreensão de 33 quilos de cocaína.
Em outro caso, auxiliares de transporte entraram com mochilas por portões de serviço e repassaram o material a um funcionário da limpeza em um vestiário sem câmeras. A droga teria sido colocada em sacos de lixo para contornar a fiscalização por raio X e, depois, entregue a um passageiro próximo ao banheiro do saguão de embarque.
As investigações também identificaram uma rota que envolvia o rompimento de uma cerca no perímetro do aeroporto. Por essa abertura, pacotes de drogas eram transferidos diretamente para carrinhos utilizados no transporte de bagagens até as aeronaves.
Em outro flagrante, um funcionário colocou malas em um contêiner que seguiria para Lisboa, em Portugal, e chegou a fotografar a carga antes de ser abordado. Os policiais interceptaram as bagagens e encontraram cocaína em seu interior.
Segundo o delegado da Polícia Federal Ivo Silva, os trabalhadores recrutados eram responsáveis por fazer com que os entorpecentes chegassem às aeronaves destinadas aos países indicados pela organização criminosa internacional.
Troca de etiquetas e envio de drogas para o Brasil
Além do envio de cocaína para outros países, a investigação identificou uma modalidade conhecida como tráfico reverso, na qual drogas são remetidas de regiões da Ásia, Europa e América do Norte para o Brasil.
Um dos casos envolve a brasileira Gabriele Amador Silva, que viajou a lazer com o namorado para os Estados Unidos e o Canadá, em maio de 2026. Durante um voo entre os dois países, a mala dela foi extraviada e só foi devolvida 18 dias depois, no aeroporto de Toronto, no Canadá.
Após retornar ao Brasil com a bagagem recuperada, Gabriele recebeu uma intimação policial. Segundo ela, uma mala contendo drogas teria sido enviada em seu nome pelo Aeroporto de Guarulhos sem seu conhecimento.
A Polícia Federal localizou duas malas abandonadas na esteira de bagagens do terminal, cada uma contendo 25 quilos de haxixe. A suspeita é de que a identificação de uma bagagem tenha sido utilizada indevidamente para vincular o transporte de drogas a uma passageira que não sabia da operação.
O método de troca de etiquetas remete ao caso das brasileiras Jeanne Paollini e Kátyna Baía, que ficaram presas por 38 dias na Alemanha, em 2023, após serem acusadas de transportar 40 quilos de cocaína em malas identificadas com seus nomes. As investigações apontaram que as etiquetas das bagagens das duas haviam sido transferidas para malas que continham a droga. Posteriormente, a inocência delas foi reconhecida, e o governo alemão pagou uma indenização.
Esses episódios evidenciam como a manipulação de etiquetas pode expor passageiros inocentes a investigações criminais e até a prisões no exterior.
Quase cinco toneladas de drogas apreendidas em 2026
O volume de entorpecentes apreendidos no Aeroporto de Guarulhos também chama a atenção das autoridades. Somente em 2026, quase cinco toneladas de drogas haviam sido apreendidas no terminal até a publicação da reportagem, número que já representava o maior da história do aeroporto.
No mesmo período, 274 pessoas foram presas por tráfico de drogas, entre elas funcionários com acesso às áreas restritas do complexo aeroportuário.
A Polícia Federal afirma que o trabalho não se limita à prisão dos trabalhadores suspeitos de participação direta no transporte dos entorpecentes. O objetivo também é identificar os responsáveis por organizar e financiar a logística internacional, alcançando os integrantes que coordenam as operações criminosas.
O delegado Ivo Silva destacou que a repressão policial, embora necessária, precisa ser acompanhada de medidas preventivas para dificultar o recrutamento de funcionários e impedir que os sistemas de segurança sejam contornados.
O que dizem as defesas e as autoridades
A defesa do funcionário preso após tentar se esconder no telhado negou que ele estivesse envolvido com o tráfico de drogas. Os advogados também afirmaram que a mala apreendida não estava sob a posse do investigado no momento da abordagem.
As defesas dos demais acusados não haviam se pronunciado até a divulgação da reportagem.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que avalia a viabilidade de novos investimentos para reforçar a segurança do Aeroporto de Guarulhos. Já a concessionária GRU Airport declarou que fornece a estrutura de vigilância do terminal e busca aperfeiçoá-la em cooperação com os órgãos de segurança pública.
O caso mantém em evidência o desafio de proteger um dos principais pontos de conexão aérea do país contra o tráfico internacional. As investigações procuram esclarecer como os grupos criminosos recrutam funcionários, exploram acessos restritos e utilizam a movimentação cotidiana de bagagens para transportar drogas sem serem detectados.
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