Manifestação na Paulista pede justiça pela morte do cão Orelha
gazetadevarginhasi
há 7 dias
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Divulgação Foto Letycia Bond/ Agência Brasil
Centenas de pessoas participaram, neste domingo (1º), de uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, pedindo justiça pela morte do cão vira-lata Orelha. O animal foi torturado por adolescentes na Praia Brava, no litoral de Santa Catarina, no dia 4 de janeiro, e morreu um dia depois, após ser submetido à eutanásia em razão da gravidade dos ferimentos provocados pela violência.
O protesto teve início às 10h, em frente ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), e seguia ativo por volta das 13h. Vestidos majoritariamente de preto, os manifestantes carregavam camisetas com a imagem do cão e frases como “Não foi só um latido, foi um chamado por justiça!”. Adesivos com mensagens semelhantes também foram distribuídos ao público, formado por pessoas de diferentes idades, algumas acompanhadas de seus animais.
Durante o ato, palavras de ordem como “Não são crianças, são assassinos!” e “Não vai cair no esquecimento!” eram entoadas. Placas defendendo a redução da maioridade penal também foram vistas ao longo da manifestação.
A psicóloga Luana Ramos afirmou ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, pauta que voltou a ser debatida no Congresso Nacional, especialmente na Câmara dos Deputados. A proposta prevê a responsabilização em casos de crimes violentos, como hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte.
“Se fossem quatro meninos pretos, teriam sido linchados. Já teriam feito justiça com as próprias mãos, enquanto os quatro meninos brancos, ricos, estão indo à Disney. Isso não pode mais acontecer”, declarou.
Luana também criticou tentativas de minimizar o ocorrido. “Erro não é isso. Erro dá para consertar. Isso não dá para consertar, não tem como voltar atrás. Foi assassinato, crueldade”, afirmou. Segundo ela, familiares dos adolescentes teriam tentado tratar o episódio como um erro. Além disso, pais de dois dos envolvidos e um tio são apontados por tentarem coagir testemunhas para impedir depoimentos. Os adolescentes são investigados por ato infracional análogo ao crime de maus-tratos.
A advogada Carmen Aires participou do protesto acompanhada da filha e de dois cães adotados. Ela destacou que Orelha teria sido a segunda vítima dos adolescentes, já que outro cachorro quase morreu afogado. Para Carmen, jovens de 15 anos já deveriam responder criminalmente, e as punições previstas para crimes contra animais seriam insuficientes.
“São muito brandas, praticamente não existem. Não resolveram nada, tanto é que continuam acontecendo. A lei é recente, mas deve ser revista, porque atrocidades estão sendo feitas e a gente não aceita mais isso, ver o noticiário, as redes sociais”, disse.
A organização Ampara Animal também foi citada durante o ato por disponibilizar materiais voltados à reeducação da sociedade. Um dos alertas feitos pela instituição é a relação entre a violência contra animais e a violência praticada contra mulheres.
O casal Thayná Coelho e Almir Lemos, de Belém, passava pela região sem conhecimento prévio da manifestação, mas decidiu aderir ao protesto. Questionados sobre a influência da cor da pele e da classe social dos adolescentes no caso, responderam em uníssono: “Com certeza.”
“A cor, a classe social. Acharam que tinham o direito e simplesmente foram e fizeram. Acharam que estavam no direito deles. As filmagens são muito claras. Eles não fizeram como se fosse um crime, como se fosse alguma coisa errada. Não, eles fazem como se estivesse dentro do direito deles”, afirmou o publicitário. “Foi muito sádico o ato, chocante. Hoje foi um cachorro. E amanhã? Eles acham que as vidas pertencem a eles, que têm direito de tirar as vidas?”
Luana complementou: “Tem muito a ver também com o que é prometido a eles. O branco, principalmente o homem branco, classe média, classe média alta. É prometido a eles um privilégio. Eles sabem que têm esse privilégio. Acham que o mundo é deles, que podem matar. Não só um cachorro, mas mulheres. Imagine as namoradas deles.”
Para os participantes do ato, o caso de Orelha expõe uma realidade mais ampla. “A gente está vendo, por esse caso do Orelha, que é apenas a ponta do iceberg, mas que há maus-tratos todos os dias, a cada minuto e nada é feito. As organizações não governamentais (ONGs) é que, com muito sacrifício, com protetores independentes, conseguem minimizar o sofrimento desses animais.”
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