Se existe algo que acompanha a humanidade desde seus primeiros passos, é a pergunta sobre o sentido do sofrimento. Por que crescer parece exigir renúncia? Por que alcançar uma vida moralmente elevada quase sempre passa por provações? E, se existe uma justiça além da morte, como ela convive com o amor que sentimos por aqueles que partiram antes de nós?
Talvez a perfeição não exija sofrimento por imposição de uma força superior. O que ela exige é renúncia. Renunciar ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, à mentira, ao desejo de dominar os outros. E toda renúncia dói porque significa abrir mão de uma parte de nós mesmos. O sofrimento, nesse caso, não seria um castigo, mas o preço natural da transformação.
É como o escultor que retira da pedra tudo aquilo que impede a obra de aparecer. A pedra não ganha beleza acrescentando matéria; ganha quando perde o excesso. Talvez o ser humano também precise perder muito de si para descobrir quem realmente é.
A santidade, então, talvez não consista em sofrer, mas em permanecer fiel ao bem mesmo quando o sofrimento chega. Afinal, a vida distribui dificuldades sem perguntar quem somos. A diferença está na forma como cada pessoa responde a elas. Alguns se tornam mais amargos; outros descobrem uma compaixão que jamais conheceriam sem atravessar a dor.
Outra pergunta inquietante é se já começamos, ainda nesta existência, a reparar os males que causamos.
É difícil imaginar que nossas escolhas desapareçam sem deixar consequências. Cada palavra dita, cada gesto de bondade ou de crueldade modifica alguém e também modifica quem o praticou. Em certo sentido, toda ação já traz consigo um julgamento silencioso. Nossa consciência registra aquilo que fizemos, e nosso caráter passa a carregar as marcas de nossas decisões.
Talvez a redenção não comece depois da morte. Talvez ela comece exatamente aqui, quando reconhecemos nossos erros, buscamos repará-los e permitimos que a experiência transforme nosso modo de viver.
Mas se houver outra forma de existência, outra pergunta inevitavelmente surge: encontraremos aqueles que amamos?
O amor parece ser uma das poucas experiências humanas que desafiam o tempo. A lembrança de alguém permanece viva mesmo quando sua presença física desaparece. Por isso, é natural imaginar que, se a consciência continuar existindo, os vínculos construídos pelo amor também não sejam simplesmente apagados.
Contudo, surge um paradoxo ainda maior.
Se, em um julgamento definitivo, alguns seguirem caminhos diferentes, como poderia existir felicidade plena sabendo que pessoas amadas permaneceriam separadas? Não seria essa separação uma fonte eterna de sofrimento?
Talvez nossa dificuldade esteja em imaginar a realidade futura com os limites da mente presente. Julgamos o infinito utilizando as emoções de uma existência limitada. Se houver uma justiça perfeita, ela não poderá ser incompatível com um amor igualmente perfeito. Caso contrário, a perfeição seria contraditória.
Talvez compreendamos, então, aquilo que hoje nos parece incompreensível. Talvez vejamos as escolhas de cada ser com uma clareza que hoje não possuímos. Talvez a justiça e a misericórdia deixem de parecer opostas e revelem que sempre foram partes de uma mesma verdade.
Ou talvez descubramos que o amor verdadeiro jamais consiste em possuir alguém, mas em desejar plenamente o seu bem, mesmo quando seus caminhos são diferentes dos nossos.
O fato é que nenhuma inteligência humana conseguiu resolver definitivamente essas questões. Filósofos, cientistas, poetas e religiosos aproximaram-se delas por caminhos diferentes, mas todos terminaram diante da mesma fronteira: o mistério.
E talvez exista uma razão para isso.
Se todas as respostas nos fossem entregues antes do tempo, viver perderia parte de seu significado. A esperança seria substituída pela certeza, a liberdade pela evidência e a busca pela acomodação.
Enquanto caminhamos, resta-nos viver da melhor maneira possível: praticar a justiça, cultivar o amor, reparar os erros, aliviar o sofrimento alheio e deixar este mundo um pouco melhor do que o encontramos.
Talvez, quando o último mistério finalmente se abrir diante de nós, descubramos que a verdade era maior, mais simples e infinitamente mais bela do que todas as teorias que fomos capazes de imaginar.
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