Há coisas que precisam ser vistas para serem acreditadas. Outras precisam apenas ser sentidas. E existe uma terceira categoria: aquelas que, aparentemente, só Míriam Leitão consegue sentir.
O cidadão vai ao supermercado, olha o preço da carne, do café, do arroz, do aluguel, da energia e dos medicamentos. Abre a conta bancária, olha o cartão e conclui que está pagando mais.
Mas talvez esteja enganado.
Pode ser apenas uma sensação.
O empresário paga juros elevados, enfrenta custos maiores, adia investimentos e pensa duas vezes antes de contratar. Outra sensação.
O aposentado chega à farmácia e percebe que seu dinheiro compra cada vez menos. Sensação.
A família vê o financiamento consumir uma parcela maior da renda. Sensação novamente.
Curiosamente, os números parecem insistir em contrariar essas sensações.
PIB não cresce porque alguém disse que cresceu. Inflação não desaparece porque foi apresentada com otimismo. Juros não ficam baratos diante das câmeras. Dívida pública não evapora no intervalo comercial.
Números têm uma característica inconveniente: não obedecem a narrativas.
Quando os juros sobem, o crédito encarece.
Quando a inflação corrói o poder de compra, o salário real perde força.
Quando a dívida aumenta, alguém terá de pagar.
Não é ideologia.
É aritmética.
Talvez o problema esteja justamente aí: existem dois Brasis.
O Brasil dos gráficos televisivos, das explicações elegantes e das narrativas cuidadosamente embaladas.
E o Brasil do supermercado, do boleto vencendo, da empresa adiando investimento e da família fazendo contas na mesa da cozinha.
O curioso é que o segundo paga as contas do primeiro.
O país do “está tudo bem”
Existe uma técnica bastante conveniente: quando o fato incomoda, muda-se o significado do fato.
O PIB cresceu? Ótimo. Mas quanto cresceu por habitante?
O emprego aumentou? Excelente. Mas qual a qualidade desse emprego?
A arrecadação subiu? Maravilha. Mas quanto o Estado retirou da economia para arrecadar?
A renda nominal aumentou? Perfeito. Mas quanto ela compra depois da inflação?
Porque crescimento econômico não é sinônimo automático de prosperidade.
E talvez seja por isso que algumas análises produzam uma sensação curiosa: a de que o país está muito melhor na televisão do que na vida real.
O necrotério das sensações
Talvez devêssemos criar o Instituto Nacional das Sensações Econômicas.
PIB decepcionou?
Sensação.
Inflação incomodou?
Sensação.
Juros estrangularam o crédito?
Sensação.
Dívida pública preocupa?
Sensação.
O custo de vida aumentou?
Sensação.
E se alguém insistir que a conta chegou, basta explicar que a conta também pode ser uma sensação.
Seria a solução perfeita para a economia brasileira: não seria necessário cortar despesas, aumentar produtividade, controlar a dívida ou fazer reformas.
A verdadeira sensação
Não se trata de negar que existam indicadores positivos. Economia é complexa, e nenhum país pode ser resumido a um único número.
Mas jornalismo econômico deveria fazer justamente o contrário da torcida:
confrontar a narrativa com os números.
O jornalista não precisa torcer contra o governo.
Nem precisa torcer a favor.
Precisa apenas perguntar aquilo que o cidadão pergunta quando recebe a conta:
“Quem vai pagar?”
Talvez Míriam Leitão esteja certa.
Talvez seja realmente uma sensação.
Só existe um pequeno problema:
milhões de brasileiros parecem estar tendo exatamente a mesma sensação.
E quando uma “sensação” aparece no supermercado, no endividamento das famílias, no custo do crédito, no consumo e nas decisões das empresas, talvez seja hora de parar de chamá-la de sensação.
Temos a sensação de que muitos se encantam com o mentiroso-mor da nação. Sabemos que na TV Globo existem várias maritacas medíocres e barulhentas quando se deleitam com narrativas contra a direita. Antes, nós pensávamos que a maior anta do país era a Dilma, mas temos a sensação de que Miriam Leitão é páreo duro para a ex presidenta que um dia saudou a mandioca.
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