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Polilaminina: pesquisa brasileira avança e pode ajudar na recuperação de lesões na medula

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura
Polilaminina: pesquisa brasileira avança e pode ajudar na recuperação de lesões na medula
Divulgação
Estudos com substância desenvolvida pela UFRJ entram em fase de testes em humanos, mas cientistas ressaltam que ainda são necessários vários ensaios clínicos.

A pesquisa com a substância chamada polilaminina, desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, ganhou destaque recentemente por representar uma possível esperança no tratamento de lesões na medula espinhal. Apesar do entusiasmo, especialistas ressaltam que ainda são necessários diversos testes científicos antes de confirmar a eficácia do tratamento.

Os estudos são liderados pela bióloga Tatiana Sampaio Coelho e começaram há mais de 25 anos. Durante a maior parte desse período, os experimentos foram realizados em laboratório, na chamada fase pré-clínica, etapa essencial para verificar se uma substância apresenta efeitos biológicos e se é segura antes de ser testada em seres humanos.

O que é a polilaminina
A descoberta da polilaminina ocorreu de forma inesperada durante experimentos com a proteína laminina, presente em várias partes do corpo humano. Ao tentar separar as moléculas dessa proteína utilizando um solvente, Tatiana percebeu que, em vez de se dividirem, as moléculas começaram a se unir, formando uma rede chamada polilaminina.

No sistema nervoso, proteínas como a laminina funcionam como base estrutural para os axônios — extensões dos neurônios responsáveis por transmitir sinais elétricos e químicos pelo corpo. Quando ocorre uma lesão na medula, esses axônios se rompem, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o restante do organismo, o que provoca a paralisia.

A hipótese dos pesquisadores é que a polilaminina possa servir como uma espécie de “estrutura de apoio”, permitindo que os axônios voltem a crescer e restabeleçam a comunicação entre o cérebro e as regiões afetadas do corpo.

Resultados iniciais
Após resultados positivos em testes com animais, a equipe realizou um estudo-piloto entre 2016 e 2021 com oito pacientes que sofreram lesões completas na medula, causadas por acidentes ou quedas.

Sete deles também passaram por cirurgia de descompressão da coluna, procedimento padrão nesses casos. Dos pacientes que sobreviveram ao trauma inicial e receberam a substância, cinco apresentaram algum grau de recuperação motora.

Quatro evoluíram do nível mais grave da escala neurológica AIS (A) para o nível C, indicando recuperação parcial de sensibilidade e movimentos. Um paciente chegou ao nível D, com recuperação quase completa das funções motoras.

Entre os casos mais conhecidos está o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu uma fratura na coluna em 2018 e ficou tetraplégico. Após o tratamento e anos de reabilitação na AACD, ele conseguiu voltar a andar e hoje apresenta dificuldades apenas em alguns movimentos das mãos.

Mesmo assim, os cientistas alertam que esses resultados não são suficientes para comprovar cientificamente a eficácia do tratamento, já que parte dos pacientes com lesões completas pode apresentar recuperação espontânea.

Próximas etapas
O estudo agora entra na chamada fase 1 dos ensaios clínicos, etapa que tem como objetivo principal verificar a segurança do tratamento em humanos.

Segundo a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cinco pacientes voluntários com lesão medular recente participarão dessa etapa. Os procedimentos serão realizados no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Os participantes precisam ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões completas na região torácica da medula, entre as vértebras T2 e T10, ocorridas há menos de 72 horas.

Diferentemente do padrão de ensaios clínicos, os pesquisadores também observarão possíveis sinais de eficácia já nesta fase, além de monitorar efeitos adversos e possíveis impactos no organismo.

Caminho até um medicamento
Segundo o professor de farmacologia Eduardo Zimmer, o desenvolvimento de um novo tratamento normalmente passa por três etapas principais.

Na fase 1, o foco é avaliar a segurança da substância. Já na fase 2, com um número maior de voluntários, são testadas diferentes doses para determinar a mais eficaz. A fase 3 envolve estudos amplos e comparativos com outros tratamentos, com grupos de controle para verificar se os benefícios realmente são causados pelo medicamento.

Especialistas ressaltam que seguir todas essas etapas é fundamental para garantir que novos tratamentos sejam realmente seguros e eficazes.

Ciência e esperança
Para os pesquisadores envolvidos, a polilaminina representa uma possibilidade promissora para milhões de pessoas afetadas por lesões medulares no mundo. No entanto, os cientistas destacam que o processo exige rigor científico e acompanhamento por órgãos regulatórios.

A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa, Meiruze Freitas, lembra que todas as fases de estudo precisam ser respeitadas para evitar que a população seja exposta a tratamentos ainda não comprovados.

Atualmente, os ensaios clínicos no Brasil seguem as regras estabelecidas pela Lei 14.874, sancionada em 2024, que também busca acelerar a análise de novas pesquisas científicas.

Para a pesquisadora Tatiana Sampaio, o avanço da polilaminina também reforça a importância de investir em ciência no país.

“Investir na ciência pública é uma opção de um país que quer se desenvolver e produzir suas próprias tecnologias”, afirmou.
Fonte: AgBrasil

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Gazeta de Varginha

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