População em situação de rua em Minas Gerais cresce 41% em cinco anos, aponta estudo da UFMG
14 de jan.
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fonte: itatiaia
O número de pessoas em situação de rua em Minas Gerais aumentou 41% entre 2020, início da pandemia de Covid-19, e 2025. Dados de um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base no Cadastro Único do governo federal (CadÚnico), mostram que a população em extrema vulnerabilidade passou de 23.433 para 33.139 pessoas no período analisado.
As estatísticas foram compiladas pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e pelo programa Polos de Cidadania. Em números absolutos, Minas Gerais aparece atrás apenas de São Paulo, que registra 150.958 pessoas em situação de rua, e do Rio de Janeiro, com 33.656. Em todo o Brasil, o crescimento foi ainda mais expressivo: o total saltou de 194.824 para 365.882 pessoas, um aumento de 87% em cinco anos.
Segundo o pesquisador Cristiano Silva, do Polos/UFMG, a situação é reflexo de um processo histórico de vulnerabilização social, marcado pela ausência de políticas públicas estruturais desde o período pós-abolição da escravidão. “Os recém-libertos foram despejados nos morros sem nenhum tipo de auxílio, e essa herança social se perpetua até hoje”, explicou.
De acordo com o pesquisador, a pandemia agravou um cenário já crítico. “Esse grupo, historicamente vulnerabilizado e com vidas já precárias, foi ainda mais prejudicado durante a pandemia, com a precarização das políticas públicas voltadas às pessoas vulneráveis. A partir desse ‘boom’ de precarização, muitas passaram a se projetar nas ruas”, afirmou.
Belo Horizonte é atualmente a terceira cidade brasileira com o maior número de pessoas em situação de rua, somando 15.474 registros no CadÚnico. A capital mineira fica atrás apenas de São Paulo, com 101.461 pessoas, e do Rio de Janeiro, com 23.431. Segundo Silva, a concentração nas capitais e grandes centros urbanos está relacionada à infraestrutura disponível, a conflitos fundiários e à emergência climática.
O pesquisador também destaca o deslocamento de pessoas do interior para as capitais, além da migração internacional, como fatores que pressionam ainda mais os grandes centros urbanos. Apesar disso, ele ressalta que o aumento da população em situação de rua também já é observado em cidades do interior de Minas Gerais.
Silva critica ainda o fechamento de políticas públicas e discursos violentos de autoridades em relação a essa população. “Quando a gente tem um poder público que não se preocupa com acolhimento e inclusão, a tendência é que esse número aumente”, alertou.
Em nota, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) de Minas Gerais afirmou que mantém o compromisso com a promoção e a garantia dos direitos da população em situação de rua. Segundo a pasta, desde 2019 o estado vem fortalecendo políticas públicas voltadas a esse público, com foco na articulação intersetorial e no apoio técnico e financeiro aos municípios.
A Sedese destacou que, conforme a estrutura do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), cabe ao Estado coordenar, monitorar e cofinanciar a política estadual de assistência social, enquanto a execução direta dos serviços é responsabilidade dos municípios. A secretaria citou investimentos do Piso Mineiro de Assistência Social, que em 2025 somaram R$ 130,7 milhões, além de parcerias com instituições não governamentais.
O governo estadual também mencionou investimentos na área de moradia, como o Projeto Piloto Moradia Primeiro, desenvolvido em parceria com a Pastoral do Povo da Rua, em Belo Horizonte. A iniciativa prevê, na primeira etapa, a reforma de unidades habitacionais, com investimento de R$ 500 mil já em execução. A segunda fase, com previsão de R$ 5 milhões, contempla a construção de novas moradias e de um Centro de Atenção Intersetorial para pessoas em situação de rua.
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