Trump promete US$ 5 mil por adulto se Republicanos vencerem; proposta enfrenta obstáculos legais e orçamentários
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Em discurso na primeira noite da convenção do Partido Republicano, realizada em Dallas, no Texas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma proposta inédita: caso os republicanos conquistem a maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado nas eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, cada cidadão adulto do país receberia um pagamento de US$ 5 mil. A medida seria batizada pelo próprio presidente de "Dividendo Trump". Segundo ele, a única condição seria que o valor recebido fosse gasto dentro do território norte-americano.
A declaração, no entanto, não veio acompanhada de detalhes sobre como o governo custearia a iniciativa. Com cerca de 270 milhões de adultos no país, o gasto total ultrapassaria US$ 1,3 trilhão — montante que se somaria a um déficit anual já estimado em US$ 2 trilhões e a uma dívida pública que chega a US$ 40 trilhões. O vice-presidente, JD Vance, tentou justificar a origem dos recursos em entrevista à rede Fox News, afirmando que o governo estaria arrecadando valores expressivos graças à política de tarifas aplicada sobre nações e empresas estrangeiras. Contudo, nenhum cálculo detalhado foi apresentado.
Não é a primeira vez que o presidente apresenta propostas semelhantes. Em fevereiro de 2025, o então responsável pelo Departamento de Eficiência Governamental, Elon Musk, sugeriu nas redes sociais um "Dividendo do DOGE", no qual cada cidadão receberia US$ 5 mil financiados pela economia de gastos públicos. Trump manifestou apoio, mas a ideia não avançou — pouco depois, os dois encerraram a parceria e o departamento foi extinto após quatro meses de funcionamento.
Já em novembro do ano passado, em publicação na rede Truth Social, Trump havia prometido cheques de US$ 2 mil para a população de menor e média renda, também custeados por receitas tarifárias. Mais tarde, em entrevista, chegou a declarar que não precisaria de aprovação do Congresso para efetuar os pagamentos, mas o plano não foi executado. À época, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, já havia esclarecido que qualquer iniciativa desse tipo dependeria de legislação específica. Apenas uma das promessas de distribuição de valores se concretizou: em dezembro de 2025, o governo concedeu um bônus de US$ 1.776 a 1,5 milhão militares, denominado "Dividendo Guerreiro", como forma de reconhecimento pelos serviços e pelas comemorações dos 250 anos das Forças Armadas.
Especialistas avaliam que a nova proposta dificilmente sairá do papel. De acordo com a analista Fernanda Magnotta, o anúncio funciona antes como instrumento de campanha do que como política pública estruturada. Embora evitem classificar formalmente a iniciativa como "compra de votos", já que não há uma troca direta entre benefício e voto individual, os analistas reconhecem que a estratégia cria uma ligação explícita entre o apoio eleitoral e um retorno financeiro. Do ponto de vista jurídico, a Constituição dos Estados Unidos estabelece que compete ao Poder Legislativo, e não ao Executivo, autorizar despesas públicas. Sem aval do Congresso, o presidente não pode simplesmente determinar o pagamento.
O economista-chefe da consultoria RSM US, Joe Brusuelas, classificou a medida como uma escolha fiscal desaconselhável e danosa. Já o professor de Relações Internacionais Carlos Poggio entende que a promessa revela, acima de tudo, uma tentativa de melhorar a imagem do presidente em um momento de desgaste.
Pesquisa realizada pela empresa Focaldata para o jornal Financial Times corrobora essa leitura. O levantamento mostra que apenas 33% dos eleitores registrados aprovam a gestão de Trump — índice considerado o menor já registrado desde o início da pesquisa em maio deste ano, com queda de três pontos em relação ao mês anterior. Mesmo entre eleitores do próprio Partido Republicano, a aprovação recuou para 72%, também o menor patamar já anotado. Cerca de dois terços dos entrevistados avaliam que a economia segue no rumo errado, e 57% afirmam estar em situação financeira pior do que antes do atual governo. Quanto à gestão econômica e à geração de empregos, a aprovação entre os próprios republicanos caiu quase oito pontos, chegando a 53%.
Com menos de dois meses até as eleições, o cenário de baixa popularidade parece ter motivado o anúncio da medida. Na avaliação de especialistas, ao atrelar um benefício concreto à vitória eleitoral de seu partido, o presidente sinaliza que reconhece estar em desvantagem e busca elevar o grau de estímulo oferecido ao eleitorado.
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