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Banco Master usou Word, PDFs e códigos para fabricar documentos falsos, diz Polícia Federal

há 1 hora
4 min de leitura
Reprodução
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A Polícia Federal identificou que funcionários do Banco Master utilizaram ferramentas como Microsoft Word, arquivos em PDF e códigos de programação para produzir documentos em larga escala destinados a dar aparência de regularidade a operações de crédito investigadas no caso envolvendo o banco. Entre os materiais estavam Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento.

Segundo a investigação, a produção dos documentos ocorreu dentro da própria estrutura do Banco Master e estava relacionada às operações atribuídas à Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A., empresa que aparecia como responsável pela origem e cessão de carteiras de empréstimos consignados.

A PF aponta que a Tirreno não possuía equipe ou estrutura tecnológica compatível com a origem dos créditos. Dados de CPFs eram extraídos de sistemas internos do próprio Master e utilizados na preparação dos arquivos que posteriormente serviriam para montar a documentação das operações.

Uma das ferramentas desenvolvidas por funcionários do banco foi chamada de “API Formalização PDF”. Criado em linguagem C#, o programa permitia retirar de arquivos PDF páginas correspondentes a assinaturas de clientes reais e combiná-las com novas Cédulas de Crédito Bancário.

Também foram produzidas procurações em grande quantidade. De acordo com os investigadores, o gerente Allan da Silva Machado utilizava o recurso de Mala Direta do Microsoft Word, alimentado por planilhas, para gerar os documentos. Depois, os arquivos eram organizados em pastas e submetidos a assinaturas digitais em lote com certificados corporativos e a ferramenta idtrust.

Mensagens e arquivos apreendidos pela PF mostram funcionários discutindo a produção dos documentos e alterações necessárias para atender às exigências feitas posteriormente sobre as operações. Em uma das conversas, aparece a orientação “precisamos excluir a data”, relacionada à retirada de informações dos documentos.

A investigação também identificou a produção de cerca de 2.700 procurações em massa. Allan da Silva Machado teria participado da organização desse material e da retirada de datas dos documentos. Funcionários da área de tecnologia, por sua vez, desenvolveram rotinas destinadas à manipulação dos PDFs e à extração de informações dos sistemas internos.

O material produzido estava relacionado principalmente às cobranças feitas pelo Banco de Brasília (BRB) e pela auditoria externa Deloitte para comprovar a existência e o lastro dos créditos adquiridos.

A PF encontrou, por exemplo, uma pasta identificada como “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”, que reunia conjuntos de documentos formados por CCB, procuração e termo de consentimento. Em 23 de junho de 2025, André Seixas Maia, em nome da Tirreno, enviou ao BRB um link do OneDrive contendo 1.785 desses kits documentais.

As operações envolvendo a Tirreno já apresentavam outras inconsistências apontadas pela perícia. A empresa havia sido criada originalmente com apenas R$ 100 de capital social e, segundo a investigação, não possuía funcionários, estrutura operacional ou movimentação financeira compatível com os bilhões de reais em créditos atribuídos a ela.

Ao todo, segundo a PF, foram registrados mais de 1 milhão de contratos no sistema do Master para formar a carteira atribuída à Tirreno. Os contratos estavam associados a 347.904 CPFs e representavam uma carteira bruta futura de R$ 30,08 bilhões, considerando parcelas e juros que ainda venceriam.

Os dados apresentavam padrões considerados atípicos pelos peritos. Entre 1.023.055 contratos ativos atribuídos à Tirreno, havia apenas 629 valores diferentes de principal. Em média, aproximadamente 1.626 contratos repetiam exatamente o mesmo valor. Um dos exemplos identificados foi um empréstimo de R$ 30.266,73, que aparecia 41.301 vezes.

Em outro lote, referente a uma cessão realizada em 2 de maio de 2025, 46.478 contratos tinham apenas nove preços de aquisição diferentes. Para a perícia, a concentração dos valores era muito diferente daquela observada nos demais contratos de crédito consignado do banco e indicava artificialidade na distribuição da carteira.

A documentação também apresentava diferenças em relação aos outros contratos do Master. Nenhum dos contratos atribuídos à Tirreno possuía arquivo PDF anexado ao sistema, enquanto 98% dos demais contratos tinham esse tipo de documentação. Além disso, 74% dos contratos da empresa não apresentavam código de compensação bancária, percentual que era de 1% entre os demais.

A investigação apontou ainda inconsistências nos supostos empregadores vinculados aos contratos. Os mais de 1 milhão de registros estavam associados a apenas três códigos: “Gov Bahia 2”, “Gov Bahia 3” e “Convênios Diversos”. O código “Gov Bahia 3” correspondia ao CNPJ da Secretaria da Administração da Bahia. Já os outros dois utilizavam o CNPJ 74.755.772/0001-70, que, segundo a PF, não existia na base oficial da Receita Federal.

De acordo com a investigação, os créditos atribuídos à Tirreno eram posteriormente revendidos ao Banco de Brasília. As cobranças por documentação passaram a ocorrer quando o BRB e a Deloitte começaram a exigir comprovações sobre a existência dos contratos e o lastro das operações.

Foi nesse contexto, segundo a PF, que a estrutura de produção documental dentro do Banco Master ganhou importância. Os investigadores identificaram funcionários envolvidos na extração de dados, montagem de arquivos, produção de procurações, manipulação de PDFs e organização das assinaturas digitais.

A investigação também identificou conversas entre funcionários sobre problemas encontrados na documentação. Em uma delas, relacionada às cobranças da auditoria, o diretor Alberto Félix de Oliveira Neto orientou Fabrizio Alencar a atribuir uma irregularidade detectada nos contratos a um suposto erro operacional na seleção das amostras.

Os documentos e mensagens fazem parte do conjunto de elementos analisados pela Polícia Federal na investigação sobre as operações do Banco Master, a Tirreno e as carteiras de crédito consignado posteriormente negociadas com o BRB.

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Gazeta de Varginha

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