EUA planejam reconstruir porto em Palau, no Pacífico, e moradores temem envolvimento em guerra entre potências
há 47 minutos
3 min de leitura
Os Estados Unidos planejam reconstruir e ampliar o principal porto de Palau, pequeno arquipélago no Pacífico, em uma iniciativa que vem provocando preocupação entre moradores sobre a possibilidade de o território ser envolvido em um eventual conflito entre grandes potências. A região, que já foi palco de combates durante a Segunda Guerra Mundial, deverá receber novas estruturas militares americanas a partir do próximo ano.
Palau fica a cerca de 800 quilômetros a oeste do Mar da China Meridional e tem aproximadamente 17 mil habitantes. Pelo planejamento americano, o país será utilizado como base no exterior para equipes de construção das Forças Armadas dos EUA. Entre as obras está a expansão de um cais que poderá receber embarcações americanas.
A estrutura original do porto foi construída pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Para moradores de Palau, a presença militar dos Estados Unidos desperta lembranças de um período marcado por combates entre tropas americanas e japonesas.
Madelsar Ngiraingas, que cresceu ouvindo relatos de familiares sobre a fuga durante uma das batalhas ocorridas no arquipélago, afirmou que a preocupação da população é sobre o que aconteceria caso um novo conflito atingisse o território.
“Para onde eles iriam? A preocupação é muito real”, disse.
Além da ampliação do porto, documentos de licitação indicam que Palau deverá receber um depósito de reserva destinado aos fuzileiros navais americanos para situações de crise. Terrenos também estão sendo desmatados para a instalação de um radar militar, enquanto um aeródromo remoto passa por obras de ampliação para permitir a operação de aeronaves de grande porte.
“Agora somos um alvo”
Uma petição assinada por cerca de 2 mil pessoas foi enviada no mês passado ao Congresso de Palau. O documento pedia garantias dos Estados Unidos de que a população estaria protegida caso um conflito armado chegasse ao arquipélago.
Palau mantém uma relação estreita com os EUA por meio de um acordo de livre associação. O país recebe financiamento americano e seus cidadãos têm direito de trabalhar e estudar nos Estados Unidos sem visto. Em contrapartida, Washington possui acesso ao território palauense para atividades de defesa.
Segundo Ongerung Kambes Kesolei, fundador do think tank local Congress Point Institute, o atual aumento da presença militar representa a primeira atividade militar significativa dos Estados Unidos no país dentro desse acordo.
“Com a chegada das Forças Armadas americanas, agora somos um alvo”, afirmou Kesolei. Ele também destacou que a posição de Palau na chamada segunda cadeia de ilhas do Pacífico ganhou importância estratégica.
A região é considerada relevante por estrategistas chineses e americanos em possíveis cenários de conflito no Pacífico.
Durante uma reunião comunitária realizada em agosto, autoridades americanas apresentaram aos moradores os possíveis benefícios da modernização do porto. Para isso, foram exibidas imagens de navios de cruzeiro. Porém, quando um dos participantes perguntou onde ficaria o terminal destinado aos passageiros, a resposta foi que a Marinha dos Estados Unidos não necessitaria de uma estrutura desse tipo.
Preocupação ambiental
Os planos também provocaram questionamentos entre líderes tradicionais, cientistas e profissionais do turismo. O porto que será reconstruído fica no centro turístico de Koror, área conhecida pelas águas cristalinas e pelos ecossistemas marinhos.
Moradores temem que as obras afetem os dugongos, animais marinhos ameaçados de extinção semelhantes aos peixes-boi, além de causar danos às lagoas turquesas de Palau, reconhecidas como Patrimônio Mundial pela Unesco.
A própria agência das Nações Unidas descreve as lagoas marinhas de Koror como “laboratórios naturais” para pesquisas científicas, por abrigarem novas espécies e uma grande concentração de corais.
Uma avaliação de impacto ambiental apontou que a dragagem prevista para o porto vizinho de Malakal deverá provocar a perda de 4,26 hectares de corais. A intervenção poderá afetar tartarugas, peixes e dugongos ameaçados de extinção.
O presidente de Palau, Surangel Whipps, defendeu a modernização e afirmou que o antigo porto estava “à beira do colapso”.
A Força-Tarefa Conjunta dos Estados Unidos na Micronésia declarou que a nova infraestrutura deverá aumentar a capacidade de Palau para o transporte marítimo comercial e para receber embarcações maiores. Segundo a organização, as obras também ampliarão as opções logísticas militares para a defesa regional.
Comentários