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Infância perdida: crianças entram no crime antes mesmo de crescerem no Rio

  • 20 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura
Em mais de 1.600 comunidades do Rio de Janeiro, a presença direta do crime organizado define a realidade de milhares de jovens. Nesses territórios, onde o Estado pouco atua e o armamento é abundante, o tráfico de drogas tem aliciado crianças e adolescentes cada vez mais cedo, como mostra o terceiro episódio da série “Infância Roubada”, do SBT.
As histórias relatadas revelam um cotidiano marcado por tiroteios, ameaças e a ausência de qualquer perspectiva. Muitos jovens se veem envolvidos com o crime antes mesmo de entender o que é infância. Como é o caso de Arthur, adolescente com transtorno neurológico, morto aos 14 anos durante um confronto policial. Sua mãe, Simone, descreve a dor de enterrá-lo justamente no Dia das Mães. Ela conta que o filho sofria bullying e buscou acolhimento onde jamais deveria: no tráfico. Apesar de seus apelos aos criminosos, não conseguiu protegê-lo.
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude, explica que a maioria dos adolescentes recrutados pelo tráfico vem de famílias com mães solo, sem referência paterna ou qualquer suporte institucional. A falta de políticas públicas agrava a vulnerabilidade desses jovens.
Um jovem de 18 anos, que ganha R$ 300 por semana no tráfico, relata que seu sonho era ser jogador de futebol, mas desistiu diante das dificuldades. Outro, hoje com 21, entrou no crime aos oito e recebeu seu primeiro fuzil aos 14. A trajetória é rápida e brutal. Em áreas dominadas, a regra é clara: “Se insistirem em entrar, a bala vai comer”.
O impacto dessa violência vai além da segurança. Em 2025, escolas municipais ficaram 167 dias sem atividades por conta de confrontos armados. No último domingo, em Acari, estudantes não conseguiram fazer a prova do ENEM devido a uma troca de tiros. Para Carlos Nhaga, do Instituto Fogo Cruzado, isso compromete o futuro de uma geração inteira.
A representante do UNICEF no Rio, Flavia Michaud, afirma que o crime se estabelece onde o Estado não está presente. Segundo ela, é nesse vácuo institucional que o tráfico cresce e se consolida.
Quando detidos, adolescentes são encaminhados ao DEGASE, onde recebem aulas e participam de atividades. No entanto, quatro em cada dez acabam retornando ao crime. A falta de oportunidades no mercado de trabalho, como ressalta a juíza Cavalieri, é um dos principais fatores para essa reincidência. “O empresário quer um jovem de classe média com inglês fluente. Não dá chance a quem mais precisa.”
Apesar da dureza do cenário, há projetos que buscam reverter esse quadro. Um exemplo é o “Segunda Chance”, do AfroReggae, que tem ajudado ex-detentos a reconstruírem suas vidas. Entre eles, João Victor e Nei conseguiram mudar de rota, mesmo carregando marcas profundas de violência e encarceramento.
Dados do Data Favela apontam que 60% dos jovens no tráfico querem sair, se tivessem chance de trabalho digno. Um deles afirma: “Minha vida vale mais que trezentos reais. Meu sonho é largar tudo”. Outro, mais velho, alerta: “Você pode até ter sorte hoje. Amanhã, talvez vire só mais um número”.
Há também histórias de superação. Alex, que agora estuda Educação Física, conta que decidiu mudar de vida ao pensar no sofrimento da própria família. “Recalculei a rota”, resume.

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Gazeta de Varginha

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