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Oferta de energia cresce mais que consumo, e Brasil 'joga fora' excesso

  • 5 de mar. de 2024
  • 5 min de leitura
Reprodução
O Brasil vive uma situação contraditória: o país produz energia renovável em excesso, mas ainda precisa ligar usinas termelétricas — mais caras e poluentes — para suprir a demanda em momentos de pico. O cenário tem como consequência um custo maior ao consumidor e desafios para a operação do sistema.
Segundo projeção do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em 2028, o Brasil terá uma demanda de 110,98 gigawatts de energia, contra uma oferta que pode chegar a 281,56 gigawatts ao final de 2027. Ou seja, a oferta vai superar a demanda em 2,5 vezes (veja arte abaixo). 1 gigawatt de capacidade pode iluminar mais de 1 milhão de residências por ano, a depender da fonte.
Essa situação de oferta maior que a demanda não é totalmente positiva, já que implica em desperdício e aumenta custos.
“Na hora em que você tem essa situação, o que tem que fazer como Operador Nacional do Sistema Elétrico? Tem que limitar essa geração. E aí você vai ter que limitar essa geração por algumas características. Vai ter que verter água, ou vai verter sol, ou vai verter vento”, explica o diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi.
No setor, “vertimento” acontece quando se abre o vertedouro, que controla o fluxo de água da usina hidrelétrica, para deixar correr a água que não vai ser utilizada para geração de energia. Também para as fontes solar e eólica, significa deixar de usar o recurso natural para geração de energia - é como “jogar fora” a capacidade de gerar.
Ainda assim, cada vez mais o ONS vai precisar acionar usinas termelétricas em momentos de pico de consumo. Isso ocorre porque o excesso de energia se dá durante o dia, em razão da geração de energia renovável, que começa a cair no início da noite.

Por que o Brasil produz energia em excesso?
Para o ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) Edvaldo Santana, os subsídios são os responsáveis pelo descompasso entre oferta e demanda de energia.
Os subsídios funcionam assim: para incentivar algumas fontes de energia, como eólica e solar, o governo concede descontos para as usinas nas tarifas de uso dos fios para distribuição e transmissão de energia. Esses descontos (subsídios) são custeados pelos consumidores, inclusive os residenciais.
Os subsídios foram mantidos mesmo depois de essas novas fontes de energia se tornarem mais baratas, o que acabou incentivando a construção de mais usinas eólicas e solares.
Santana explica que o planejamento do setor deveria seguir a premissa de que a oferta deve acompanhar a demanda por energia, o que prevê também alguma margem a mais de oferta no caso de falta de chuva e seu impacto sobre as hidrelétricas, por exemplo. Mas, no Brasil, a oferta está passando muito dessa margem.
“De um tempo para cá, mais ou menos de 2013 e 2014 para cá, as fontes renováveis — e isso é bom para o Brasil — tiveram muito crescimento na participação na matriz elétrica, só que tudo isso movido a subsídio. Excesso de subsídio para fontes que não precisavam provocou o aumento enorme de oferta, que se deslocou da demanda. Hoje, a oferta é mais que o dobro da demanda se for medir em termos de capacidade instalada [o quanto cada usina pode gerar]”, destaca o ex-diretor da Aneel.
O superintendente adjunto da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Renato Haddad Simões Machado, explica que o governo concede incentivos a uma tecnologia quando quer promover a sua entrada no sistema ou quando quer levá-la a locais aonde o investimento privado não chegaria naturalmente.
“O grande problema é quando esses subsídios deixam de ser necessários. Por exemplo, você quer incentivar uma determinada tecnologia para entrar no sistema e ela já se desenvolveu, já entrou no sistema, já está num grau de maturidade, e você não precisaria mais ter aquele subsídio atuando. Quando chega nesse momento, você acaba trazendo distorções de mercado”, declarou.
Machado conta ainda que uma dessas distorções é a expansão de uma tecnologia que não seria necessária ao sistema, mas se torna atrativa economicamente para as empresas por conta dos subsídios.
Foi o que aconteceu com a energia eólica e solar. A manutenção dos descontos, mesmo depois da consolidação dessas fontes no Brasil, levou ao seu crescimento exponencial. Segundo o ONS, em 2023, a energia eólica já representava 12,8% da matriz elétrica nacional, e a solar, 5%.
Para termos de comparação, as usinas hidrelétricas representam 47,1% do sistema. E as termelétricas (mais poluentes), respondem a 12,2% do total.

O que acontece com o excesso de energia?
Como não se armazena o que é gerado pelas usinas eólicas e solares, a energia dessas fontes precisa ser consumida na mesma quantidade e ao mesmo tempo em que é ofertada. É uma característica física dos sistemas elétricos.
O risco, caso o consumo não esteja sincronizado com a produção, é de causar danos ao sistema.
“O Operador tem que ficar atento, porque senão as consequências para o sistema podem ser desastrosas. E [tem que] avaliar a capacidade e a produção de energia de todas essas fontes do Brasil inteiro, fazendo de uma forma coordenada desligamentos dessas fontes para que continue mantendo em vigor as leis dos circuitos elétricos”, explica Ciocchi.
Dessa forma, o ONS pode pedir o desligamento de usinas para evitar que haja um desequilíbrio entre a energia ofertada e o consumo no sistema elétrico. Ciocchi alerta que deixar de usar o potencial de geração por falta de demanda já é uma realidade, que tende a ser mais frequente.
“Todos os dias você tem esse desafio, em particular nos finais de semana, porque nos finais de semana a nossa carga [demanda] é ainda menor, porque a atividade econômica não está na sua plenitude”, declara o diretor-geral do ONS.
Santana, ex-diretor da Aneel, defende que o governo incentive o consumo industrial em momentos de excesso de oferta, barateando a energia.
“Isso foi feito até a década de 1980, chamava-se 'energia garantida por tempo determinado’. Você garantia a energia para alguns consumidores — na época era só a indústria —, durante um tempo, para aumentar o consumo naquela região e não precisava construir tanta transmissão para exportar [para outras regiões do país]”, explicou.
Santana destaca que o cenário atual de excesso de energia não seria completamente resolvido por uma política de incentivo ao consumo, mas o problema da energia “jogada fora” seria atendido.

Como a energia é escoada?
O sistema elétrico é organizado em geração, transmissão e distribuição. As usinas geradoras de energia se conectam à rede de transmissão, que corta o país e é operada pelo ONS.
A rede de distribuição, por sua vez, está na outra ponta, e tem sua operação mais localizada, a nível estadual ou de agrupamentos de municípios. Ela está ligada à transmissão e faz a distribuição da energia aos consumidores. Nessa etapa quem atua são as empresas distribuidoras, que são as que cobram a conta de luz do consumidor.
O governo contrata a construção e manutenção das linhas de transmissão por meio de leilões. As usinas conectadas ao sistema usam essas linhas para fornecer energia.
Nos casos em que o ONS precisa ''verter" ou "jogar fora" a energia, as usinas deixam de usar os recursos naturais. Ou seja, as hidrelétricas abrem os seus vertedouros e deixam a água passar sem mover as turbinas para geração de energia, as eólicas deixam de girar suas pás e assim por diante.
Por causa da quantidade de usinas que estão sendo construídas, os leilões têm batido recordes sucessivos de investimentos previstos. Só em 2023 foram contratados R$ 37,4 bilhões em linhas de transmissão.
Esses últimos certames foram realizados para contratar a infraestrutura necessária para escoar a energia eólica e solar produzida no Nordeste e no norte de Minas Gerais. São linhas que estão sendo construídas por causa do excesso de oferta, mas que vão ficar sem uso em muitos momentos, já que não há demanda.
"A transmissão em qualquer lugar do mundo participa com no máximo 7% da tarifa total [de energia, paga pelo consumidor]. Aqui, vai participar de mais e vai operar em vazio porque na maior parte do tempo não vai ter o que transmitir, vai ter que esperar carga [demanda]", explicou Santana.
Fonte: G1

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Gazeta de Varginha

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