Há momentos na história em que uma nação parece caminhar de cabeça para baixo. Para muitos brasileiros, este é exatamente o sentimento que domina o país atualmente: a sensação de que os honestos precisam se justificar enquanto os poderosos escapam de qualquer consequência.
Assistimos, nos últimos anos, a uma das maiores inversões morais da história política nacional. Pessoas condenadas em processos que mobilizaram o país inteiro voltaram ao centro do poder, enquanto adversários políticos passaram a ser tratados como inimigos a serem eliminados da vida pública. O que antes era apresentado como combate à corrupção transformou-se, aos olhos de muitos cidadãos, em um espetáculo de seletividade jurídica e conveniência política.
A velha imprensa, que durante décadas se apresentou como guardiã da democracia, abandonou a imparcialidade para atuar como protagonista política. Escândalos que antes ocupariam manchetes durante semanas passaram a receber tratamento discreto. Já os erros e controvérsias dos adversários ideológicos ganharam cobertura intensa e permanente. O jornalismo investigativo deu lugar ao ativismo travestido de notícia.
Enquanto isso, o cidadão comum enfrenta uma realidade cada vez mais dura. O custo de vida aumenta, a insegurança preocupa famílias, a máquina pública continua pesada e a sensação de impunidade corrói a confiança nas instituições. O discurso oficial fala em prosperidade; muitos brasileiros enxergam dificuldade crescente para sustentar seus negócios e suas famílias.
A democracia depende de instituições fortes, mas também depende da confiança popular. E confiança não se impõe por decisões judiciais, campanhas publicitárias ou narrativas repetidas diariamente. Ela é conquistada pela coerência, pela transparência e pela aplicação igualitária da lei.
O Brasil precisa recuperar valores simples: responsabilidade pública, respeito ao contribuinte, combate efetivo à corrupção e liberdade para divergir sem ser tratado como inimigo. Nenhum governo, partido, magistrado ou veículo de comunicação deveria estar acima do escrutínio da sociedade.
A história ensina que o poder é passageiro. O povo, porém, permanece. E é justamente por isso que a crítica livre continua sendo uma das últimas linhas de defesa da democracia.
A propósito, não temos como acompanhar diariamente tudo o que acontece na política nacional. Há narrativas demais, factoides em excesso e uma profusão de versões conflitantes. Esse tipo de material raramente encontra espaço em nossas crônicas. Ainda assim, Varginha, como qualquer outro município brasileiro, reproduz uma realidade bastante conhecida: seus partidários, muitas vezes, não seguem — ou talvez sequer conheçam — os princípios e objetivos dos próprios partidos aos quais estão filiados.
Na prática, boa parte das legendas transformou-se em meros abrigos eleitorais, dispostos a acolher qualquer candidato que demonstre algum potencial de votos. Misturam-se esquerda, direita, centro, extrema esquerda e extrema direita em um mesmo caldeirão de conveniências. O resultado é previsível: ideologias desaparecem, convicções evaporam e sobra apenas a busca incessante por um trampolim eleitoral mais seguro. Nesse ambiente florescem mandatários e aspirantes a mandatários que pouco conhecem as atribuições dos cargos que ocupam ou pretendem ocupar.
Via de regra, é exatamente isso que sempre criticamos. Em nível federal, a maioria dos políticos insiste em repetir as mesmas atrocidades políticas, mudando apenas os discursos e os personagens. Enquanto isso, a minoria que ainda preserva algum compromisso com princípios vê-se obrigada a ajoelhar-se e rezar para que o bom senso prevaleça.
A desinformação, por sua vez, continua sendo uma poderosa aliada dos caudilhos de ocasião. Mesmo quando acumulam contradições, promessas descumpridas e discursos oportunistas, muitos seguem sendo reverenciados por parcelas do eleitorado. Sustentam-se pela retórica conveniente do momento, pelo poder econômico e, sobretudo, pela memória curta de uma população que, em grande medida, parece resignada ao papel de espectadora. Falta indignação, falta vigilância e, acima de tudo, falta o sangue quente necessário para defender o país dos que fazem da política um negócio particular.
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