Natal: entre o sagrado, a lenda e o ruído do mundo
O Natal nasceu no silêncio de uma manjedoura, não no barulho das vitrines. Veio ao mundo sem holofotes, sem comércio, sem pressa — apenas com fé, humildade e promessa de redenção. Celebrava-se o Verbo que se fez carne, a esperança que desceu à terra. Hoje, porém, o que se vê é um Natal coberto de embrulhos, mas muitas vezes vazio de contemplação.
No lugar do Menino-Deus, ergueu-se a figura folclórica do Papai Noel. Uma lenda de barba branca e riso fácil, criada para encantar crianças e que acabou transformada em símbolo do consumo. Ele não pede conversão, não fala de sacrifício, não confronta consciências; apenas entrega presentes. Troca-se o Cristo que salva pelo personagem que agrada, a cruz pelo trenó.
Ainda assim, algo de bom resiste. Há um valor genuíno no brilho dos olhos e no sorriso largo das crianças. A fantasia, quando inocente, emociona; lembra-nos da capacidade humana de sonhar, de crer no bem, de esperar algo melhor. Esse encanto, por si só, não é pecado — é expressão de pureza e ternura.
O problema começa quando ninguém questiona as tradições. Quando ritos vazios são repetidos sem reflexão, o homem deixa de conduzi-los e passa a servi-los. O que deveria ser símbolo vira regra; o que era meio torna-se fim. Assim, aos poucos, tornamo-nos escravos de costumes que já não compreendemos, mas obedecemos por hábito e medo de destoar.
O mesmo se repete nas demais datas e na virada do ano: ama-se por calendário, promete-se por superstição, acredita-se que o tempo, sozinho, fará o trabalho que cabe à consciência. Mas o relógio não transforma a alma.
O verdadeiro Natal não está em negar a alegria, nem em destruir símbolos, mas em recolocá-los no lugar certo. Com Cristo no centro, a tradição serve ao homem. Sem Ele, o homem acaba servindo à tradição.
Comentários